quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Réguas diferentes

Em toda a minha infância nunca soube da existência de uma parte do boi: o filé mignon. Em Passos, MG, cidade em que morei até os 11 anos, quando se comia um bife, o normal era a alcatra ou o contra filé.

Um tempo depois de mudarmos para São Paulo, pela primeira vez na vida, soube que existia o filé mignon.

Minha mãe sempre foi partidária da participação de todos nas tarefas domésticas. Tornei-me o comprador oficial de carne. Até hoje, olhando para as peças em um açougue, reconheço cada corte. Se era carne moída, a escolha era o patinho, para os bifes a rolê, o coxão mole ou o duro. Os bifes do dia a dia eram sempre de alcatra. Minha mãe dizia: “Só compra alcatra se tiver passado do meio da peça.” A carne é mais dura no começo dela. Nesse caso, a instrução era para comprar contrafilé. É uma coisa que não esqueci.

Morando em São Paulo, ao descobrir da existência do filé mignon, fiquei com vontade de experimentar. Minha mãe, no entanto, mantinha-se irredutível. Continuava na alcatra. Seu argumento: “Filé mignon é uma carne sem graça, seca e é para banguelas.”Bom, pra que discutir com a mãe?

Deve ter demorado uns cinco anos para que eu pudesse comer filé mignon pela primeira vez. Ela, inexplicavelmente, mudou de opinião e os bifes quase diários mudaram para esse corte.

Comida de rico. Apesar da infância de sacrifícios, meu pai era de hábitos requintados. Por exemplo, jogava golfe. Quando minha irmã foi para a Escandinávia, deu-lhe dólares para que trouxesse caviar, salmão defumado e enguia defumada, que ocuparam dois terços de sua mala na volta. Na década de 1970, eram itens da mesa de ricos, o que não era o nosso caso. 

Sempre participei dos afazeres domésticos. Meu pai adorava fazer festas em nossa casa no bairro do Morumbi. Sobrava para minha mãe e sua auxiliar, a empregada doméstica da vez. No apuro, virei o terceiro auxiliar: batia maionese na mão, cortava cebola, picava alho e ficava a acompanhar o cozimento dos alimentos. Desse modo, adquiri uma certa habilidade com os utensílios domésticos e com a cozinha. 

Meu pai chegava sempre por volta das 19h. A mesa já estava sempre posta. A peça de salmão defumado era de respeito, uns 40 cm., assim como a enguia defumada. Eu era o cortador oficial. Todas as noites, fatiava o salmão em finíssimas lâminas e a enguia em rodelas de menos de um centímetro de espessura. Durante semanas, diariamente, foi o menu de jantar do meu pai. O resto da família, exceto eu, nunca foi chegado em coisas do mar.

Em um das vezes em que o menu incluía filé mignon, enquanto se esbaldava com o caviar — comia de colherada —, salmão e enguia defumada, veio com essa: “Vocês ficam comendo filé mignon… e nem imaginam o tanto de gente que não tem nem tem o que comer!” E nós, mudos, olhando para a cara dele, impávida, a deliciar-se com iguarias pouco comuns em mesas de comensais da classe média.

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