quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Marcos Resende, um “desconhecido” genial

O único trabalho de Marcos Resende e sua banda Index lançado no Brasil foi “Festa Para Um Novo Rei”, em 1978, na série MPBC (Música Popular Brasileira Contemporânea), selo criado pelo selo Philips para promover alguns nomes da música instrumental brasileira. 

O selo surgiu no mesmo ano em que aconteceu o  I Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em parceria com os realizadores do tradicional Festival de Montreux. De vida breve, 1978 a 1981, deu espaço a músicos como o pianista e arranjador Nelson Ayres, o percussionista Djalma Corrêa, atração de um dos primeiros festivais, Nivaldo Ornellas, saxofonista e flautista que tocou com Milton Nascimento, o baterista Robertinho Silva, o pianista Túlio Mourão e Marcos Resende, dentre outros.

Antes desse álbum, em 1976, Resende gravou no estúdio Sonoviso um disco tendo Toninho Barbosa como engenheiro de som, conhecido pelos trabalhos com o Azimuth (depois americanizaram trocando o “i” pelo “y”) e Marcos Valle. Parece que ele ofereceu o disco para a CTI, gravadora americana que teve seu auge nos anos 1970, com um cartel que incluiu os brasileiros Airto Moreira, Eumir Deodato, Milton Nascimento e Antônio Carlos Jobim, além de outros como Paul Desmond, Hubert Laws e Joe Farrell. As negociações não prosperaram, mas Resende manteve as fitas de gravação com ele. Em 2017, entrou em contato com a gravadora Far Out Recordings, do DJ e produtor inglês Joe Davis que, entusiasta da música brasileira, lançou nos últimos anos discos fora de catálogo e esquecidos, ou quase, como o de Arthur Verocal, Os Ipanemas, Sabrina Malheiros e até de Marcos Valle, Azymuth e Joyce Moreno no mercado internacional. Verocal foi um dos que que foi redescoberto no Brasil depois do relançamento pela Far Out.

As fitas foram recuperadas, remasterizadas e o álbum foi lançado em janeiro de 2021. Infelizmente, Resende não pode festejar. Morreu em 12 de novembro, vítima de câncer, aos 73 anos, em Lisboa, cidade em que tinha voltado a morar. Esse álbum cobre uma grande injustiça ao tecladista e compositor. É um exemplo acabado de quão talentoso ele era, totalmente contemporâneo à corrente do que alguns chamaram de jazz-rock, e outros, de jazz progressivo. 

É uma injustiça para um músico antenado ao seu tempo, com a experiência de, antes de ter tocado no Festival de Jazz de Cascais de 1971, abrindo a apresentação de Dexter Gordon. Esse fato é porque Resende, nascido no Brasil em Cachoeiro do Itapemirim, ES, resolveu estudar Medicina em Portugal, ainda nos anos 1960. Com formação musical sólida, formou um trio e começou a se apresentar no continente europeu.

Em 1974, resolveu voltar para o Brasil. No ano seguinte, gravou o disco lançado pelo selo inglês, com sua banda formada por Rubão Sabino no baixo, Claudio Caribé na bateria, Oberdan Magalhães, da Banda Black Rio nos saxofones e flauta, e ele, nos teclados Prophet-5, o Mini Moog e o Yamaha CP-708. É uma pena não ter sido lançado na época. Teria sido um marco para a música instrumental brasileira, ao lado de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, com a característica de ser mais cosmopolita, mais influenciada pelo jazz-rock.

A grande qualidade do álbum de 1976, lançado na Inglaterra no começo deste ano, é a de que a música de Resende não era uma simples imitação ou diluição da onda inaugurada por Miles Davis e vários músicos que participaram das gravações de “Bitches Brew”. Além dos dois tecladistas citados no parágrafo anterior – Corea e Hancock –, outros, como John McLaughlin, com a Mahavishnu Orchestra, Wayne Shorter e Joe Zawnul, que criaram o Weather Report, foram as grandes bandas que popularizaram o jazz-rock. Ele, influenciado pelo novo gênero, conseguiu construir um som original ao incorporar seu conhecimento e vivência com a música brasileira.

“Festa Para Um Rei”, de 1978, curiosamente, não tem a potência do álbum que ficou inédito até agora. Neste, os músicos são outros, com exceção de Oberdan Magalhães, encarregado dos sopros. São Claudio Gabis na guitarra, Jorge Degas no contrabaixo elétrico, Wilson Meireles na bateria e Marcelo Salazar na percussão. Vários títulos remetem ao Brasil e sua cultura: “Terra de Vera Cruz”, “Mulato”, “Macacheira” e “Vidigal”.

Em 1990, Resende resolveu voltar a morar em Portugal. Seus outros álbuns são “About Jobim” (1996), gravado ao vivo no Festival de Jazz de Kopenhagen, “Tributo a Roberto Carlos” (1998) – como ele, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim –, “Abrolhos” (1993) e “Nonchalance” (1990). Lançou também “Som e Fantasia” (1984), com Nivaldo Ornelas. São discos difíceis de serem encontrados, com preços bem altos em sites de vendas de LPs e CDs usados.

De “Festa Para Um Rei”, “Vidigal” é uma música relativamente conhecida, pelo menos para os que gostam de música instrumental.

 
 
“Corsários” é um tema bem interessante, com um solo belo de Oberdan Magalhães, um dos criadores da Banda BlackRio.
 
 
 
 
Ouça o álbum “Marcos Resende & Index”, lançado agora pela Far Out Recordings.
 

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