Dentre as empregadas domésticas que passaram pela casa da minha família, algumas se destacam por suas peculiaridades: dona Neusa, alcoólatra, que não voltou das férias por ter levado uma facada na testa, uma outra de peitos enormes que andava com um radinho de pilha encaixado no sutiã, uma pernambucana que dizia que era fácil de arrumar um matador por 200 reais, mas a de quem escrevo nesse momento, é por uma lembrança bem mais banal, mais ou menos banal.
Nem lembro do nome dela e nem por quanto tempo trabalhou na casa de meus pais. Devia ter uns 16 anos ou um pouco mais. Depois de um tempinho, percebi algo de estranho em seu olhar. Inicialmente achei que era estrábica. Conversando com ela um dia, por curiosidade, devo ter perguntado se tinha algum problema na vista. Disse que sim. Teve que colocar um olho de vidro.
Diziam que David Bowie tinha um olho de vidro, porque uma de suas pupilas não dilatava e os olhos ficavam de cores diferentes. Mas parece que tinha um problema por ter levado um soco em uma briga com um amigo por causa de uma amiga. Quem viu “O Homem Que Caiu na Terra” (1976), filme de Nicolas Roeg, protagonizado pelo inglês, deve ter percebido a diferença do tamanho das pupilas nos closes.
Estávamos na cozinha quando me contou do olho. Devo ter feito mais alguma pergunta. Prontamente, ela disse: “Quer ver como é o olho de vidro? Eu posso tirar para você ver.” E nisso, levou a faca que estava usando para cozinhar em direção a ele. Devo ter gritado ou apenas me assustado. Só me lembro que disse: “Não, não precisa!”
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