O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.
Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.
Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.
Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.
Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.
No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.
Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.
Acho que a rádio Cultura deveria fazer um podcast só com os programas do Conde daqueles anos todos de Jazz Concert. São programas atemporais e que não podem ser perdidos.
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