terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Rare Silk e a tradição dos conjuntos vocais

Grupos vocais como o Hi-Lo’s, Four Freshmen, The Pied Pipers, Andrew Sisters e Boswell Sisters fizeram muito sucesso no período entre guerras e após. No Brasil também. Tivemos formações como Os Garotos da Lua, liderado por Jonas Silva, que depois fundaria o pequeno selo Imagem, gravadora que lançou bons títulos de jazz. Aliás, um dos melhores álbuns do Hi-Lo’s não saiu lá: é a coletânea que Jonas lançou aqui. Outro conjunto famoso – o mais, provavelmente – é Os Cariocas. Foram grandes divulgadores da então nascente bossa nova.

Veja os Hi-Lo’s em com Frank Sinatra.





Ouça Os Cariocas cantando Samba do Avião.




Há certo charme nostálgico nesses grupos vocais que estiveram tão em voga em certo período e hoje estão quase extintos. Ativo ainda, não tenho a certeza, é o New York Voices.

Posteriores aos citados, na era bebop, surgiu o Lambert, Hendricks and Ross. Jon Hendricks resolveu fazer uma coisa que parecia impossível: adaptar letras em temas de Tadd Dameron, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Era uma coisa meio alucinante, como os versos em temas rapidíssimos como A Night in Tunisia: algo como Ademilde Fonseca cantando Brasileirinho. Não ficaram juntos por muito tempo. A bonitona (naquele tempo; se você quiser saber quem é ela, assista a Shortcuts, de Robert Altman; é a mãe da cellista suicida) caiu fora logo e foi perseguir carreira solo. No seu lugar entrou Yolande Bavan e mudaram o nome para Lambert, Hendricks and Bavan. Não foram longe. Hendricks continuou em carreira solo e até outro dia (tem hoje 98 anos) estava fazendo participações especiais em álbuns de outros músicos.

Um dos grupos vocais mais conhecidos na década de 1960 foi o Singers Unlimited. O mesmo Gene Puerling, um dos Hi-Lo’s, foi um de seus criadores. Eram excepcionais. O álbum que gravaram com Oscar Peterson – In Tune – é uma preciosidade. Lançaram três álbuns “a capella” que são clássicos. Como era um grupo surgido na era do rock’n’roll dos Beatles e os Rolling Stones, não restringiram o repertório aos standards do jazz. Gravaram bossa nova e canções como Here, There and Everywhere, de Lennon e McCartney.

No Brasil, nesta mesma década, vimos surgir vários conjuntos desse tipo. O mais conhecido é o MPB4, mas tivemos também o Quarteto em Cy, Trio Esperança e os Golden Boys. Os dois últimos iam por um caminho voltado mais ao pop. Inspiraram-se mais por outros conjuntos conhecidos, como os Platters. Os Golden Boys (três irmãos e um primo) eram afinadíssimos; até mereciam ser relançados.

Nos anos 1970, a vez foi do Manhattan Transfer. Apropriaram do título de um romance de John Dos Passos e seguiram uma linha próxima a do Singers Unlimited, cantando standards com uma roupagem mais moderna. Um dos destaques é a versão de Killer Joe, famoso tema de Benny Golson.

Veja a apresentação da música, que consta do DVD Vocalese.





A formação original de Rare Silk
Gaile Scriver, MaryLynn Gillaspie, Marguerite Juenemann e Todd Buffa formaram o Rare Silk. Chamaram a atenção quando participaram do Playboy Jazz Festival, com a banda de Benny Goodman, em 1980. Ganharam um contrato da Polydor e lançaram New Weave (nova trama), bom trocadilho com “new wave”, contando com participações de Ronnie Cuber, Randy Brecker, Michael Brecker e Gary Bartz. O disco foi um sucesso e até indicado para o Grammy. Eles e o Manhattan Transfer eram os melhores grupos vocais.

Dois anos depois, lançaram American Dream (Palo Alto, 1985). Não era tão bom quanto o primeiro. Saiu ainda mais um e depois não se falou mais do Rare Silk. É quase inexplicável o ocaso. Simplesmente, evaporaram: não possuem nada à venda na loja iTunes e nem em sites de downloads piratas. Mereciam ser conhecidos pelas novas gerações que possuem bom gosto. Quer uma prova?

Ouça Spain, de Chick Corea, com letras de Al Jarreau.




Ouça Lush Life “a capella” com o Rare Silk.




Ouça a ótima Joy!

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