terça-feira, 25 de outubro de 2011

A abertura da 35ª Mostra de Cinema de São Paulo mais quatro filmes

A 35ª Mostra de Cinema de São Paulo começou com uma nota triste: a morte de seu criador, Leon Cakoff, poucos dias antes de seu início. Na festa de lançamento que ocorreu na última quinta-feira, no Auditório Ibirapuera, vários dos discursantes, além de salientar a importância de Leon, fizeram questão de dizer que a Mostra se tornou um patrimônio de São Paulo e terá continuidade. Há muito tempo, além da mulher Renata, há uma equipe montada que cuida da infraestrutura de sua montagem.

A bela Cécile de France, o menino e as bicicletas
Após os discursos foi apresentado o curta Viagem à Lua, de Georges Méliès, em versão restaurada e colorida; excepcional, principalmente para quem conhecia alguns trechos apenas, e em preto e branco. A seguir, foi exibido O Garoto da Bicicleta (Le gamin au vélo), dos irmãos Dardenne. Deve ser o primeiro filme light deles. Não faltam personagens de famílias disfuncionais. O “menino da bicicleta” é deixado pelo pai em um orfanato. É um garoto problemático, rebelde e “bandidinho”. É tutelada por uma cabeleireira, que fica com ele aos domingos, que o ajuda a procurar o pai “sumido”. É um filme seco, como de costume; a parte light é que, dessa vez, vislumbra-se uma redenção. A personagem feminina é interpretada pela bela Cécile de France, atriz principal do recente filme Além da Vida (Afterlife), de Clint Eastwood.

O cinema gosta de fins “abertos”, que deixam o espectador a imaginar a “continuação” dos filmes. É o caso do filme dos irmãos Dardenne, de The Day He Arrives (Bukcom Banghyang), de Hong Sang-soo, e de Era Uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan.

Ricardo Calil, no Guia da Folha, disse do coreano, diretor de The Day He Arrives, que “ele é o melhor discípulo de Eric Rohmer e Woody Allen.” De Rohmer sim; não vi muito Allen na história. Filmado em preto e branco (está sendo apresentado em projeção digital), “relata” a vinda de Sun-joon, que abandona a carreira de cineasta e vai morar numa cidade do interior, a Seul para se encontrar com o amigo Yong-hoo, crítico de cinema. O filme tem uma narrativa circular, quando as situações se repetem, com pequenas variações, em encontros com as mesmas personagens. Os diálogos, como nos filmes de Rohmer, são primorosos, colhendo pérolas a partir de ocorrências corriqueiras. Em uma conversa de bar – de bêbados, consequentemente – o cineasta aposentado diz que as coisas acontecem por acaso e que, juntando-os, procuramos dar-lhes um sentido. Em outra, não lembro bem, mas ficou registrado algo como o de que as mulheres agem em dois extremos e quando juntados, fazem sentido. Essa produção difere um pouco do que associamos ao cinema coreano.

Na mesma noite, assisti ao último filme do turco Nuri Bilge Ceylan. Era Uma Vez na Anatólia é um longa de quase três horas de duração. O chefe da polícia e sua equipe partem para uma longa jornada noite adentro com os suspeitos do crime, no intuito de localizarem o corpo da vítima. O suposto assassino – Kenan (Firat Tanis) – lembra apenas que o enterrou perto de uma fonte de água e que havia uma árvore de copa redonda.

Com fome, decidem fazer uma parada na casa de um velho senhor, conhecido do motorista de uma das viaturas e do promotor que acompanha a busca. Até então, todos os personagens são masculinos. A primeira aparição feminina é da filha do velho Mukhtar. Há, digamos, uma mudança na história depois disso. Kenan “descobre” que a pessoa a quem matou é o filho de Mukhtar (ele o “vê” enquanto estão reunidos) e consegue se lembrar do local onde o enterrou. Serve como “motivo”, também, para a revelação dos “dramas” pessoais do promotor e do médico legista, um dos membros da equipe policial.
Bilge Ceylan, mais uma vez premiado em Cannes
A paisagem desolada das estepes é cortada por fachos de luzes em linhas horizontais de três veículos, que seguem uma estrada estreita e sinuosa no início da noite. Essa é a segunda cena. A que abre o filme é a de três homens “enclausurados” num pequeno vestíbulo de uma borracharia. É noite. Um deles se aproxima do vidro embaçado e sai para dar comida ao seu cachorro. É um filme minimalista, num sentido bem diverso ao do coreano Hong San-soo, pois, através de “pequenos sinais” a história vai sendo construída. É um trabalho de mestre, com interpretações memoráveis como as de Taner Birsel (o promotor Nusret) e de Muhammet Uzuner (o médico Cemal). Era Uma Vez tem um final, como os dois citados, “aberto”, e nesse caso, não se sabe se é de esperança ou de desalento quando se vê o médico legista, enquanto seu assistente vai retirando as vísceras do morto, observar pela janela a viúva e seu pequeno filho indo embora.

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