Na maior parte de sua vida, Ed esteve fora deste mundo; ou porque estava doidão, entupido de heroína, anfetaminas e cocaína, ou porque estava na prisão de San Quentin, junto com criminosos da pesada. Saiu da cadeia em 1966. Tímido, custou-lhe adaptar-se à nova vida, e voltou às drogas. O mais previsível teria sido o de tornar-se um indigente doidão. Mas o cara era forte e com alguma mão das circunstâncias e acasos, conseguiu um lugar ao sol. Em 2007, lançou seu primeiro álbum: Ed Reed Sings Love Stories. Estava com 76 anos.
Depois de sair da cadeia, casou com Diane, que quando o conheceu, nem sabia que cantava. É possível que tenha desenvolvido a técnica do canto quando encontrava-se preso. Meu amigo Zeca Leal gostava de dizer que a melhor banda de jazz estava em San Quentin e em outros presídios. Pense em uma reunindo Joe Pass, Hampton Hawes, Dexter Gordon, Art Pepper, Frank Morgan e Wardell Gray. Todos esses, depois de soltos, conseguiram retomar suas carreiras. Diferentemente desses, Ed não era profissional antes de ser preso, daí, talvez, a razão de só ter entrado no negócio da música há pouco tempo.
O público e a crítica adoram esses “retornos” ou descobertas tardias como a de Alberta Hunter e de Jimmy Scott. A primeira afastou-se da música para cuidar da mãe e, posteriormente, trabalhou como enfermeira. Em 1978fora convidada para fazer algumas apresentações no The Cookery, em Nova York. Chamou a atenção do produtor John Hammond, da Columbia Records, e gravou Remember My Name. Tinha mais de 80 anos. Fez um sucesso tremendo. Apresentou-se até em São Paulo. Jimmy Scott (leia: http://bit.ly/1wwPzlT) ficou fora do mercado em razão de alguns passos errados na carreira e chegou a trabalhar de ascensorista. Voltou em grande estilo em 1978 e retomou a carreira com sucesso.
Não foi diferente com Ed Reed. A crítica, se não coloca nos píncaros, recebeu-o com entusiasmo e tem elogiado seus discos, talvez com a benevolência que devotam aos “sobreviventes”, como foi dito no parágrafo anterior. Assim mesmo, Reed é uma revelação, quem sabe, até para ele, que nunca teria imaginado que pudesse ficar conhecido tão tardiamente. É um quase milagre.
O álbum mais recente de Ed Reed chama-se I’m a Shy Guy – A Tribute to Nat King Cole. A fórmula dos tributos é meio caminho andado para o sucesso. Com uma pequena e competente banda formada por Randy Foster (piano), Jamie Fox (guitarra), John Wiitala (baixo) e Anton Schwarz (saxofone tenor) traz alguma novidade. O repertório não cai naquele lugar comum, mesmo ao incluir canções célebres e quase indissociáveis à voz de Nat, como Unforgettable, Straighten Up and Fly Right e It’s Only a Papermoon. Alguns destaques são as menos conhecidas That’s the Beginning of the End e I’m Lost.
Ouça That’s the Beginning of the End, com o acompanhamento ao piano de Randy Potter.
Ed é um “rising star”, sendo um octogenário. Nem parece ter a idade que tem. É um fenômeno por revelar-se tão tardiamente e também um fenômeno da ciência. Há de considerar-se que esses casos de longevidade apesar dos abusos químicos, não apenas com a drogas ilícitas, mas também com o álcool e o cigarro, são raros, no entanto, mais frequentes do que se imagina. Que Ed continue a entoar sua bela voz até os 100 anos. É a prova de que nunca é tarde para se revelar, e que este seja um exemplo para todos.
Assista ao vídeo promocional de I’m a Shy Guy.
Ed Reed canta Inside a Silent Tear.
Veja Ed em Old Man.
Ed canta Bye Bye Blackbird.

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