Por estar sempre à procura de ouvir guitarristas desconhecidos que me sejam reveladores, deparei-me com o álbum “Auspicious Healing!” (Anami Music, 2000). O nome de Muñoz, de quem nunca ouvi falar, seria o suficiente para despertar a minha curiosidade? Creio que não. O interesse surgiu principalmente porque a pianista era Marilyn Crispell. Como a conheci? O que mais me impressionou em “Anthony Braxton Composition 98” (hatART, 1981) foi Crispell. Desde então compro tudo o que acho dela e estou sempre atento a qualquer disco que conta com sua participação. Seguindo a linha do novelo, sigo o desconhecido.
Primeiro passo: ouvir. Procuro referências, comparações com outros guitarristas. O seu estilo é pesado, meio roqueiro, o que me leva a pensar em Carlos Santana, em primeiro lugar, Jeff Beck, Larry Coryell e John McLaughlin. Em comum, por não cantarem, privilegiam o instrumental.
Ao ouvir as primeiras faixas, penso logo em “Illuminations” (Columbia, 1974). A música de Muñoz é pesada, com uma carga mística presente no som e nos títulos: “Prayer for Tolerance”, “Teardrop (Blood from the Astral Heart)”, por exemplo. É mais um motivo a atrair-me. É um certo gosto pelos climas dramáticos e celestiais.
Além de Crispell, Muñoz está rodeado de músicos considerados avant garde, como Henry Kaiser, outro guitarrista interessante, e o baixista Mark Dresser. O velho Pharoah Sanders, que passou a ser conhecido depois de entrar na última banda de John Coltrane, afirmou que ele é único guitarrista com quem gosta de tocar.
Apesar de seu nome estar ligado a vários luminares do avant garde do jazz, sua música é apetecível aos ouvidos menos afeitos às aventuras de Anthony Braxton e Cecil Taylor. Muñoz preza bastante as linhas melódicas. Meio roqueiro, tende aos sons climáticos, que lembram a fase místico-religiosa do ex “chefe” de Pharoah.
“Auspicious Healing!”, de 2000, é o único que conheço de Muñoz como líder. Se não é excepcional, é suficiente para despertar a minha curiosidade em ouvir outros álbuns seus.
Das sete faixas, a minha preferida é “Shenai Letticia Munoz (Prayer for a Safe Birth)”. Como na maioria delas, a música é som e fúria. Seu início é dramático, meio apocalíptico, em belos acordes do piano de Marilyn Crispell. Muñoz entra quebrando, acompanhado do baixo e bateria. Depois de seis minutos e meio, Crispell faz o solo em continuidade ao da guitarra, em ondas sonoras de tirar o fôlego. Não é à toa, que uma das minhas pianistas preferidas.
Ouça.

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