Mais ou menos na mesma época, surgiram duas cantoras de vozes pequenas e afinadíssimas: Jane Monheit e Tierney Sutton. Eram o oposto das duas últimas grandes damas vivas do jazz: Carmen McRae e Sarah Vaughan, que tinham morrido uns dez anos antes delas gravarem seus primeiros álbuns, com vozes poderosas e marcantes.
Jane estreou em 2000 com “Never Never Land”. Tierney, dois anos antes, lançara “Introducing Tierney Sutton”. Esta última tinha 35 anos, 14 a mais que a primeira. Acostumado com a potência e expressividade de Vaughan e McRae, e do talento incontestável de Shirley Horn, outra veterana, “redescoberta” pela gravadora Verve, fiquei bem crítico com as duas novatas. Minha impressão era a de que eram afinadas e não muito mais que isso.
Vi por duas vezes Jane Monheit no Bourbon Street, em São Paulo. Minha maior lembrança é a de que, na primeira vez, estava bem magra, recém casada com o baterista da banda. Lembro também que a pianista era muito boa. Não guardei seu nome. Era japonesa, isso sei. Na segunda vez, Jane continuava linda. A diferença é que estava, no mínimo, uns dez quilos mais pesada, desculpe a frivolidade. Tierney, não sei, acho que nunca veio ao Brasil.
Para mim, o que mudou com o passar do tempo, foi a de que não tenho vontade de ouvir Jane, enquanto Tierney ainda me provoca curiosidade. A banda, que está com ela faz uns 20 anos, é um primor. Ela, inclusive incorporou-a ao seu nome. Não se apresenta com o seu nome, simplesmente, é The Tierney Sutton Band. Fazem parte dela Christian Jacob, bom pianista que se revelou tocando com Maynard Ferguson, os baixistas Trey Henry e Kevin Axt e o baterista Ray Brinker. Dois baixistas, isso mesmo. Seus últimos álbuns são muito bons, sempre concebidos a partir de um conceito, ou melhor, uma proposta.
“After Blue” (2013), adivinhe a referência? Joni Mitchell? Acertou. É uma pós-leitura, digamos. Não é com a banda. Tem participações do Turtle Island Quartet, Larry Goldings (belíssimo em “Court and Spark”), Serge Merlaud na guitarra, Hubert Laws, Kevin Axt (este, da banda), Peter Erskine, Ralph Humphrey e Al Jarreau.
Ouça “Court and Spark”.
Ouça também ‘Blue”, com participação do Turtle Island Quartet.
Joni Mitchell não é a única homenageada. Outro foi Sting, com “The Sting Variations” (2016), este com o quarteto. É interessante porque faz um mélange com temas do jazz nas composições de Gordon Summers, ou melhor, você sabem o nome verdadeiro do rapaz. Como uma cantora genuína do jazz, Sutton transforma temas conhecidos, como “Every Little Thing Is Magic”, “Sincronicity”, “Fragile” e outras.
Veja ela e o quarteto em “Driven to Tears”. “So What”, de Miles Davis serve de introitus para o tema do ex-Police.
Em 2016, Sutton e sua banda participaram da trilha sonora de “Sully”, filme de Clint Eastwood. Foi a ideia de fazerem um álbum com temas de cinema. O subtítulo, que não está na capa e sim no site é “19 songs in five acts”. O grande homenageado é a Alan, que com Marilyn Bergman, foram letristas de temas do cinema, como “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand. Aliás, aos 93 anos, Alan faz um belíssimo dueto com Tierney em “How Do You Keep the Music Playing”.
Ouça.
Um dos bons destaques é “The Sound of Silence”, de Paul Simon, com uma introdução bombástica e bela. E é belo o acompanhamento com o som de contrabaixo e tabla, com a voz de Sutton. Depois tem um solo de piano de Christian Jacob, muito bom, que lembra McCoy Tyner.
Outro que gosto muito, com um belo trabalho de baixo elétrico o acústico é “If I Only Had a Brain”, bem jazzy.
Bom, para fechar, “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand e Alan e Marilyn Bergman.
Uma última: “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Lembra-se de Marilyn Monroe cantando?

Nenhum comentário:
Postar um comentário