Ao ir em busca de novos horizontes, repetia o que fizera seu tataravô Ladário Teixeira. Nem o fato de ser cego o impediu de tornar-se um grande saxofonista e apresentar-se em palcos europeus e americanos. Era tão prestigiado que recebeu elogios do filho do inventor do saxofone, Adolph Sax. Ladário, ciente das deficiências do instrumento para a execução de peças eruditas que tocava muito bem, ajudou a criar um modelo em que foram acrescentados quinze notas. Assim surgiu o “Modelo Ladário”, fabricado pela Selmer. O impressionante é que isso foi faz muito tempo: há quase cem anos.
Baseado em Los Angeles, Fabiano montou a banda TriOrganico, com Tiki Pasillas e Pablo Calogero. Lançou o álbum Sul, com o saxofonista Sam Gendel, e agora, está previsto para os próximos dias o seu primeiro solo: Dança dos Tempos.
O disco conta com a participação especial de Airto Moreira e, além de Fabiano, os outros músicos são Ricardo “Tiki” Pasillas e Kana Shimanuki nos vocais. Desde a primeira audição fica evidente que Fabiano é um virtuose, um daqueles talentos incontestáveis que o Brasil gosta de gerar. Seu som é de uma energia contagiante e dedilhado limpo na melhor tradição que produziu Baden Powell e Raphael Rabello.
A primeira faixa é Forró Brasil, de Hermeto Pascoal. A bateria de Tiki Pasillas faz a diferença. É aquela batida bem característica, que, a princípio, só os brasileiros fazem. Mas Pasillas é americano, um americano de alma brasileira. O entendimento dos dois beira a perfeição.
Ouça Forró Brasil.
Em Ewe, o violão de Fabiano é discreto, para que brilhem a percussão de Airto e a voz de Kana Shimanuki, cantando em português. Estranho? Não. Kana é canadense, filha de pai japonês e mãe brasileira nascida na Bahia. Por alguma razão – será porque a percussão é de Airto? – sua voz lembra a de Flora Purim.
Ouça Ewe.
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A terceira é O Ovo, mais uma de Hermeto, e, de novo, a batida de Pasillas surpreende. O som da percussão fica na altura do violão. O primeiro em que Fabiano toca sozinho é Iemenjá. Baden Powell deve estar agradecido por ter um violonista tocando tão lindamente sua música. É interpretação de um mestre, e Fabiano tem pouco mais de 30 anos.
Primeira Estrela é uma canção conhecida nas vozes de Luli e Lucina. Aqui é cantada por Fabiano. Craque ao violão, não faz feio nos vocais. É a segunda participação de Airto. Seu violão de sete cordas, às vezes, lembra aquele som dos violeiros.
Se tudo até a quarta faixa é muito bom, sua interpretação de Étude, de Villa-Lobos, é genial. Inicia-se com o violão e uma percussão que vai crescendo e torna-se dominante. É uma das melhores coisas que ouvi neste ano.
Ouça.
Kana volta em Minha Ciranda, cantiga conhecida de Mestre Capiba. Sua voz combina perfeitamente. A mixagem é interessante. O violão tem um pouco mais de peso do que os vocais e a percussão discreta de Airto. Em algumas passagens é aumentado o volume da voz, e o solo do violão fica abaixo da base do violão. Interessante. Nana é outra cantiga, desta vez cantada por Fabiano. O violão é tão impressionante que mais parecem dois; ele sola e toca a base. É uma aula.
Em Tocatta em Ritmo de Samba de no.2, volta-se a outro grande compositor brasileiro: Radamés Gnatalli. Começa com o ritmo inebriante de Pasillas. Há uma interrupção para a apresentação do tema e logo mais, a volta da bateria acompanhando o violão. Na próxima, Fabiano resolve estraçalhar. Novamente, em solo, executa Se Ela Perguntar, de Dilermando Reis (sobre ele, leia http://bit.ly/1hRhN5N). Mortal. Ouça.
E para terminar, como que quisesse mostrar do ainda é capaz, entra com um tema próprio: Tupi. Belíssimo. Ao fim dela, ficamos com vontade de ouvir novamente o disco.
Ouça Tupi.

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