quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ute Lemper e diferenças entre Pablo Neruda e Paulo Coelho

Já que não tem mais Lotte Lenya nem Gisela May, esta, viva ainda – nasceu em 1925 –, a boa opção para se ouvir as parcerias de Bertold Brecht com Hans Eisler e Kurt Weill é Ute Lemper. Encontrou um bom nicho a preencher. São poucos os intérpretes de “cabaré”. No Brasil, continuam firmes e fortes a explorarem o gênero, Cida Moreira e Suzana Salles.

Quem assistiu a alguma apresentação ao vivo ou em vídeo, conhece bem o seu talento como performer. Começa pela presença física, mulher alta, esbelta, bonita, de rosto anguloso e olhos penetrantes, Ute é uma mulher que une poder interpretativo e voz. Ficou conhecida como intérprete de obras de Brecht e seus parceiros. Ampliando o espectro de cantora especializada em um repertório de canções conhecidas como de cabaré, incorporou ao seu repertório músicas com esse tom meio dramático e expressionista de autores díspares como Tom Waits, Astor Piazzolla, Jacques Brel, Scott Walker e Nick Cave.

Com muitos discos lançados, aventurou-se por muitos gêneros como o jazz, com ’Round Midnight, de Thelonious Monk, o erudito contemporâneo de Michael Nyman e Philip Glass, e dos musicais, como Stephen Sondheim. Mais recentemente, lançou Forever: The Love Poems for Pablo Neruda.

Ute poncho e conga
Em princípio, devido a expectativa criada em torno de se musicar o poeta chileno, que a brasileira radicada nos EUA já tinha feito em 2004, o que se esperava algo de qualidade, resulta em enorme decepção. Em parceria com o argentino bandoneonista Marcelo Nisinman, Ute canta em espanhol, inglês e em francês. O que não era tão evidente, seus maneirismos vocais que tendem aos exageros típicos do “modo cabaré de cantar”, que podem ser adequados numa dramática Ne me quitte pas ou em Die Ballade von der sexuellen Hörigkeit, da Ópera dos Três Vinténs, soam inadequados em poemas delicados como os de Neruda. Devido à cooperação de Nisinman, tudo vira tango. E aqui, cabe a pergunta: que ritmo combina com Neruda. Nesse quesito, Luciana foi mais esperta ao escolher como “parceiro” o finado catalão Frederico Mompou. E Lemper, em seus exageros vocais extravagantes, massacra as versões em inglês e em espanhol. Nessa língua, razoavelmente familiar a nós brasileiros, seu Neruda espanhol é pavoroso.

Veja Ute em Ausencia. Tem uma bela presença de palco, sem dúvida.




Ute e o Brasil, isto é, Ute e Paulo
Sabe aquela história do pelotão com um único soldado marchando errado, achando-se o único certo? É mais ou menos nisso que penso quando o assunto é Paulo Coelho. Enquanto é execrado e ignorado pela crítica brasileira, faz um sucesso tremendo fora daqui. Às vezes me pergunto se eu não estou sendo preconceituoso ao acompanhar a opinião da crítica e do leitor médio. Ou será que o que acho filosofia barata e rasteira é tida como profunda e exemplar pelos não brasileiros?

Lemper leu Manuscrito Encontrado em Accra, do grande “mago” brasileiro no verão de 2013 enquanto excursionava pela Austrália. Um mês depois, estava em São Paulo. Por meio de um amigo brasileiro, conseguiu entrar em contato com Coelho. Ele, por sua vez, disse ser fã de sua música e então iniciou-se a “jornada conjunta”.

Um ano e meio depois, as composições estavam prontas. Ute gravou o álbum contando com a colaboração de Gil Goldstein e Jamshied Sharifi. Músicos de várias partes do mundo como a África, Europa, Oriente Médio e Sudeste Asiático, e nenhum brasileiro, fora o “mago”, dão o tempero world. O resultado? Por melhor que fosse, meu preconceito em relação ao nosso escritor vivo mais famoso, seria preponderante no meu juízo. Mas, nem é por isso. Consigo ter distanciamento suficiente para julgá-lo independente do autor que a inspira. O que posso dizer? Se, com Neruda tivesse já ficado com um pé atrás – pela dramaticidade em vocais equivocados –, agora, fiquei com os dois. É nuito ruim; e acho que estou prestes a abandonar Lemper. Em um efeito de contágio incontrolável, já não estou gostando tanto de suas incursões até no repertório brechtiano. Para coroar, se Ute cantando em português é pavoroso, pior é ouvir a voz de Paulo Coelho com uma dicção de doer em The 9 Secrets, lançado no fim do ano passado. Quer conferir?

Ouça o álbum na íntegra. A faixa com Paulo recitando em inglês é em The Story of Accra (a partir do 17º minuto).

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