terça-feira, 26 de agosto de 2014

Cécile McLorin Salvant é a maior revelação dos últimos anos


Nem Billie Holiday e nem Ella Fitzgerald conseguiram ficar em primeiro lugar “cantora do ano” e “cantora do ano – rising star”, pela revista Downbeat, no mesmo ano. Confesso não saber se em seus tempos existia a segunda classificação. A responsável pelo ineditismo é Cécile McLorin Salvant, capa e destaque de várias publicações especializadas em jazz. E tem mais: seu álbum WomanChild foi considerado o melhor do ano na opinião da crítica e também a “Jazz Artist” na seção “Rising Star”, ou seja, ficou em primeiro em quatro categorias diferentes.

Há dois anos Cécile nem poderia imaginar que algo parecido pudesse acontecer. WomanChild, foi lançado ano passado, pela MackAvenue. É seu disco de estreia no mercado americano. Depois é que se tocaram que havia um gravado com o saxofonista francês Jean-François Bonnell, seu ex-professor, chamado, simplesmente, Cécile.

A quase menina – completa 24 anos em outubro – nasceu em Miami, filha de um médico, natural do Haiti, e de uma francesa, educadora e dona de uma escola bilíngue. Sua primeira língua foi o francês. Com quatro anos, a mãe colocou-a para estudar piano. Cécile é aquela típica filha de família nascida de pais que cedo preparam as crianças para o futuro. Muitas vezes criticada, essa atitude de forçar seus rebentos a cumprir tarefas que não são naturais para a idade, pode valer posteriormente. Mas não é garantia. Com ela deu certo. Fala e escreve em três línguas e persistiu nos estudos de música. Mudou-se para a França com o propósito de estudar o período barroco no Conservatório Darius Milhaud e cursar Direito.

Interessando-se pela música de improviso em razão de ter ficado fascinada com Bessie Smith, começou a estudar com Jean-François Bonnel. Logo depois, estava participando de apresentações com seu professor. Se a expectativa paterna fosse a de Cécile tornar-se cantora lírica, aconteceu um leve desvio. A frustração, no entanto, deve ter desaparecido com o sucesso e o imenso talento demonstrado.

Percebendo que seu caminho era em direção ao jazz, resolveu participar do Thelonious Monk International Jazz Vocals Competition. Ficou em primeiro lugar. Um dos presentes no concurso era Ed Arrendell, artist manager que tinha como cliente Wynton Marsalis. Por meio de Arrendell, encontrou-se com ele. Recebeu o conselho de que, como cantora, nunca deveria assumir um papel passivo com a banda, e sim ela imprimir o ritmo. Wynton, posteriormente, definiu-a com com os seguintes adjetivos: “Equilíbrio, elegância, alma, humor, sensualidade, poder, virtuosismo, alcance, percepção, inteligência, profundidade e graça.” Aaron Diehl, seu pianista, afirmou que Salvant “não é apenas uma cantora. Ela é um músico de jazz.”

As atenções voltadas à Cécile não representam que é a maior ou a melhor e tampouco que será uma estrela como foram Holiday, Fitzgerald ou Sarah Vaughan. Fato é que está com tudo e sabe que tem um longo caminho à frente. Seu senso de autocrítica é forte. Em entrevista dada a Chema García Martinez do periódico espanhol El País por ocasião da apresentação no prestigiado Festival de Jazz de Victoria-Gasteiz, afirma: “Simplesmente não me sinto bem lendo o que dizem sobre mim, como tampouco ver meus vídeos ou escutar meus discos. Em algum momento posso estar condicionada pelo que dirão. Sou insegura, tenho medo de fazer algo e depois me dar um ataque de pânico pensando se fiz bem. Às vezes acordo coberta de suor, convencida de que o que faço é uma fraude.” Quando o repórter afirma que “depois de 18 meses […] tornou-se uma estrela do jazz”, responde: “Eu não sou uma estrela.”

Tanto se fala do esgotamento da música erudita ou do jazz. Houve sim um encolhimento do público apreciador desses gêneros, sem dúvida. Porém, nunca deixaram de evoluir, apesar do empobrecimento do gosto musical. Sempre haverá espaço para a boa arte. Salvant é um exemplo, como reforça Ted Gioia, autor do texto do encarte de WomanChild: “De vez em quando um novo artista de jazz chega à cena e nos lembra do poder e da glória da sua música, e mostra como jazz pode mexer com nossas emoções.”

Além das qualidades como cantora, Cécile McLorin Salvant é carismática e tem presença não sendo exatamente bela. É uma figura que chama atenção, com seus óculos de aro branco, de Emmanuelle Khan, designer que tem como um dos clientes o rapper Run-DMC. E o melhor: canta muito. Além de intérprete, compõe. Duas faixas são de sua autoria: WomanChild, Le front cache sue tês genoux e Deep Dark Blue.

Veja Cécile cantando a música título.




Veja Salvant cantando I Didn’t Know What Time It Was, no Dizzy’s Coca-Cola Club. No CD, é a segunda faixa.




No mesmo clube, canta Mean to Me.




O “making of” de WomanChild.

Nenhum comentário:

Postar um comentário