quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A primavera sagrada pelo Bad Plus

Dave King, Ethan Iverson e Reid Anderson
Adaptações de temas da música erudita para a popular são mais frequentes do que se imagina, assim como canções populares e folclóricas serviram de inspiração para compor, como fizeram Johannes Brahms, Bela Bartók, Heitor Villa-Lobos e muitos outros.

Quando estava no ginásio, o equivalente ao segundo grau de agora, com o que sobrava da mesada dada pelos meus pais, passei a comprar LPs – são os equivalentes dos CDs de agora –, coisa de um a cada dois meses. Isso quer dizer 12 por ano. Estimando-se que ouvia música por quatro horas diárias e cada LP tinha em média de 35 a 45 minutos, imagine quantas vezes ouvi cada um. Em tempos atuais, com a quantidade de LPs (de 4 mil sobraram uns 300 e pouco), CDs e arquivos de música em mp3, preciso de mais 40 anos de vida para ouvir tudo o que tenho sem repetir nenhum.

Dentre os cinco primeiros LPs adquiridos, um foi Pictures at an Exhibition, de Emerson, Lake & Palmer. Nem fazia ideia que era uma adaptação de uma obra de Mussorgsky, e muito menos sabia quem era ele. Não era um zero à esquerda quanto a música dita clássica. Digamos que estava no grau 1. Já tinha ouvido alguma coisa de Schubert, Beethoven e Bach. Tudo bem básico, coisas que a humanidade, inclusive a patuleia, da qual fazia e faço parte, conhece. Os únicos russos de quem tinha ouvido falar eram Tchaikowsky e Rimsky-Korsakov.

Em certa feita, flagrei uma pessoa, ao ouvir um trecho da Nona Sinfonia, de Ludvig van Beethoven, dizer: “Oh, é a música do Laranja Mecânica.” Tudo é questão de referência… e cultura; não digo “alta cultura”; digo cultura no sentido real, a cultura da vivência. A Nona da trilha sonora do filme de Stanley Kubrick era um adaptação ao sintetizador moog com Walter Carlos, que trocaria de nome para Wendy Carlos após a mudança de sexo. Pois, até então minha referência era a do LP do trio inglês. De tanto ouvir, conhecia cada trecho de Pictures at an Exhibition. Conheci a original tempos depois, ao piano e a transcrição para orquestra de Maurice Ravel. Existem outras, mas a do francês é a mais difundida. O maestro Kurt Masur, ao gravá-la para a Teldec, optou pela orquestração feita por Sergei Gorchakov em 1954, na sua opinião mais fiel. O pianista e regente Vladimir Ashkenazy também achava que a do francês continha erros e algumas liberalidades sobre a obra original. Fez a sua versão e registrou-a em 1983, em álbum lançado pela Decca.

A Sagração da Primavera é jazz

Igor Stravinsky é um dos compositores que, ao emigrar para os EUA, ficou impressionado com a força do jazz. Não deve ter imaginado, em vida, que um dia alguém transporia sua obra para esse gênero. Os autores dessa empreitada foram o Bad Plus, composto pelo pianista Ethan Iverson, o baixista Reid Anderson e o baterista e percussionista Dave King, a partir de uma encomenda da Duke University, feita em 2010.

A trajetória do Bad Plus é peculiar. Sim, a “alma” da banda é Ethan. O que é um trio de jazz? Composto por piano, contrabaixo e bateria, toca standards, em sua maioria. Certo? Talvez seja o formato mais característico. É um gênero consagrado com muitos exemplos excepcionais. Um dos melhores foi o de Bill Evans, Scott LaFaro e Paul Motian. 

Os vários trios de Bill Evans são um exemplo, principalmente aquele que contou com o genial Scott LaFaro e o baterista Paul Motian. Nos tempos atuais, o trio formado por Keith Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette é uma amostra de que esse formato é infinito. The Bad Plus resolveu inovar por um outro caminho: o repertório. Em vez de mais um Gershwin, mais um Berlin, optaram pelo repertório pop, executando temas como Smells Like Teen Spirit (Nirvana), Heart of Glass (Blondie), Iron Man (Black Sabbath), Velouria (Pixies), Everybody Wants the Rule the World (Tears for Fears) e Life from Mars (David Bowie). além de composições próprias do trio. Não apenas pelos temas contemporâneos o Bad Plus é um trio diferenciado.

Veja-os interpretando Everybody Wants to Rule the World.




Assista a uma apresentação do Bad Plus no Village, em 2004.







A Duke University não poderia ter feito melhor escolha. O perfil experimental do trio era perfeito para enfrentar o desafio de transcrever A Sagração da Primavera. Revolucionária quando estreou em 1913. A composição encomendada por Sergei Diaghilev para o Ballets Russes causou um escândalo a ponto de ter necessitado a intervenção da polícia parisiense. Era revolucionária quando foi apresentada pela primeira vez e até hoje impressiona por sua força anímica, ao ao ter como tema a celebração de uma festa pagã. À primeira vista, seria impossível imaginar como se poderia adaptar uma peça tão cheia de contrastes rítmicos. Essa era uma tarefa para Ethan, Reid e Dave. E não é que não decepcionam? Impressionante como com apenas um instrumento solista por excelência e dois que servem mais como base rítmica, com um pouco de ajuda da eletrônica, conseguiram dar conta de adaptarem estruturas musicais complexas, dissonâncias e contrastes melódicos tão fortes.


Ouça a introdução da Sagração com o Bad Plus



A parte final da Sagração.




Veja trechos da apresentação no Lincoln Center.

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