quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Por que gosto de András Schiff?

O húngaro András Schiff
O “por” e o “que” estão separados pela simples razão de que é uma indagação, e também porque não sei por que gosto tanto de András Schiff.

Contrariamente do que se imagina, entre os anos 1970 e 1990, na época dos LPs de vinil, muitos discos de música erudita dos principais selos – Deutsche Grammophon, London, Decca e Philips, que faziam parte de um mesmo grupo, e a CBS – foram prensados no Brasil. Mesmo assim, não lembro de algum de Schiff aqui lançado.

Nos tempos dos chamados “bolachões” – os LPs – era um martírio ouvir música erudita em equipamentos domésticos. A música “silenciosa” era invadida pelos sons de estática, poeira e riscos que as agulhas de diamante amplificavam de forma atroz. Era horrível um adágio ao piano “pipocado” de chiados. Apesar dos defensores da pureza do som dos aparelhos analógicos, a era do CD nos livrou desse martírio. Ainda no tempo do vinil, minhas primeiras aquisições de Johann Sebastian Bach para teclado foram as de Glenn Gould, lançadas no Brasil. Até aquele que, parcamente conhecia Bach, sabia que o canadense era “A” referência.

Do mesmo modo que Gould era idolatrado, possuía também seus detratores, em razão de seu modo idiossincrático de executar o grande compositor alemão. Gould era polêmico. Sentava-se ao piano em uma cadeirinha que fora feita por seu avô quando era ainda criança. Ficava com a cara no teclado. Tinha conceitos muito determinados quanto ao seu modo de tocar e chegou a polemizar com Yehudi Menuhin. Depois que deixou de se apresentar ao vivo, passou a defender ferrenhamente as gravações em estúdio. Morreu jovem, com apenas 50 anos. Isso reforçou a idolatria por ele. Discordando ou não de algumas coisas, era um gênio. Curiosamente, hoje, pouco se fala dele. Gould virou até personagem do belo O Náufrago, de Thomas Bernhard (Companhia das Letras).

Bach, no entanto, não era “propriedade exclusiva” do canadense. Por curiosidade e para verificar se Gould era tudo o que falavam, comprei discos com outras interpretações, isso já na era dos CDs. Na única vez em que fui ao Japão, passei mais tempo dentro das lojas de discos do que nas ruas. Isso foi em 1987, muito tempo atrás, portanto. Não havia lugar melhor para comprar discos que sequer tinham sido lançados na Europa ou nos EUA. Dentre as preciosidades encontradas, a melhor foi Chet Baker Sings, lançado originalmente em 1956, em LP (este causou furor; não lembro do tanto de cópias em fita cassete aue fiz para os amigos). A outra foi uma caixa de Billie Holiday, com todos os registros na Columbia (1933-1942), incluindo os alternate take. O box continha oito CDs, um encarte relacionando todas as gravações e músicos, e outro, com as letras de todas as músicas. No Brasil, essas gravações foram lançadas em CDs separados. Bem, no total, trouxe quase 100 CDs e acabei barrado na alfândega. Minha irmã, que tinha ido me pegar no aeroporto, preocupada com a demora, pediu que uma funcionária da Varig fosse averiguar o que acontecia. O fiscal me perguntou se eu era funcionário da Varig e, no susto, respondi, sim. Pediu-me que fechasse as malas, e assim me livrei dele… eu e os discos.

Dentre os cem CDs, comprei vários de música erudita que, dificilmente os encontraria no Brasil: as Seis Suites de Cello, de Bach, com Pablo Casals (depois, como o disco de Chet Baker, virou “carne-de-vaca”, encontrável em qualquer lojinha de esquina), a Paixão segundo São Mateus, com regência de Otto Klemperer, a obra completa para piano de Claude Debussy por Walter Gieseking, outras, de Mozart, com András Schiff. Pois, desse pianista, que nem ao menos conhecia, adquiri as Partitas, BWV 825-830 e o Cravo Bem Temperado completo, de Bach. Comprei-os tendo como referência a boa reputação da London Records em se tratando de música clássica.

Hoje, se tenho vontade de ouvir o Cravo Bem Temperado, pego a de Sviatoslav Richter ou a de Schiff. Gould é a minha terceira opção. Tenho também a de Edwin Fischer, o primeiro registro completo do Cravo em discos, em gravações feitas de 1933 a 36. Como Gould foi o meu preferido por um tempo, hoje, gosto mais das Seis Partitas do que do Cravo.
Tenho-as com András Schiff. Se me perguntam por que gosto tanto, não sei responder. Por que você gosta tanto mais de um do que do outro? É uma pergunta. Às vezes, é inexplicável, racionalmente. É como no amor.

Quando soube que ele ia se apresentar na Sala São Paulo, fiquei na expectativa. Infelizmente, nesses dias, fui viajar. Por enquanto, como consolo, posso ficar a ouvir um álbum duplo lançado pela ECM com algumas obras de Robert Schumann, comprado recentemente. Leio nos jornais – até os atrasados, que não li quando estava ausente – e as críticas me deixam arrependido por não tê-lo ouvido ao vivo. João Marcos Coelho, de O Estado de S. Paulo diz: “Desconfio que teremos de esperar vários anos até assistirmos a outra noite pianística tão excepcional (OESP, 30/8/2012). Compara- o ao pianista do momento: “A leitura de Schiff da sonata D. 960 [Franz Schubert] esteve a milhões de anos-luz do canhestro Lang Lang meses atrás no mesmo local.

Ouça a abertura da Partita nº 4, BWV 828. Se você der uma busca no YouTube, é possível encontrar vários trechos das Partitas com András Schiff.




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