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| Hélène Grimaud |
A beleza é a primeira qualidade referida. Os versos iniciais de Retrato de mulher – “As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental. É preciso/ Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso” –, de Vinícius de Moraes, ditas e escritas de memória e ouvidas de outrem foram aliteradas e pouco distorcidas. No final, querem dizer a mesma coisa. Se beleza não é fundamental, pelo menos, ajuda, independente de gênero.
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| Hélène e os lobos |
Hélène Grimaud, Bach e uma comparação com outras interpretações
Num claro sinal de que estou ficando velho, tenho pouca curiosidade de conhecer novos intérpretes. Elegi meus preferidos e tendo a ouví-los ou sou obrigado em razão de tê-los disponíveis nas minhas prateleiras. Habitam-nas Sviatoslav Richter – falo de pianistas –, Glenn Gould, András Schiff, Willhem Kempff, Valdimir Ashkenazy, Walter Gieseking, Artur Schnabel, Alfred Brendel, Claudio Arrau, Arturo Benedetti Michelangeli, Maurizio Pollini, Maria João Pires, Martha Argerich, Nelson Freire, Radu Lupu e alguns outros. Acho que os meus preferidos estão entre os citados. Por insistência de um amigo, ouvi Lang Lang. Muito bom. Não sei se compraria um CD dele. Meu senso crítico, em relação à música, é limitado: passando de bom, para mim é ótimo.
Dois intérpretes mais jovens (dos com menos de 60), entretanto, me impressionaram: Grimaud e Paul Lewis. Nunca imaginei que um dia pudesse ouvir um Schubert melhor do que o de Richter e Brendel. Enganei-me. E não é só Schubert. Lewis é magistral executando Beethoven. Um terceiro nome interessante é o de Yuja Wang. A pequena chinesa – de novo a referência à beleza – se apresenta com roupas bem ousadas, curtas e (ou) decotadas. Quando a vi, usava um longo preto com um corte lateral de deixar qualquer cristão perturbado. Até hoje fico a pensar de como consegue usar os pedais do piano com aqueles sapatos com salto 15.
Grimaud é uma mulher de atitude. Foi muito noticiado o entrevero que teve com o Claudio Abbado. Maestros são como imperadores – ou ditadores? Suas ordens devem ser obedecidas e, pronto. Abbado foi o escolhido para suceder o “kaiser” Herbert von Karajan na Filarmônica de Berlim. Ficou pouco em razão de ter tido um câncer no estômago. Alguns dizem que foi por culpa dos músicos.
Pela gravidade da doença, não se imaginava, mas voltou e tem gravado bastante e, atualmente está à frente da Orquestra Mozart, de Bolonha. A história com HG aconteceu na gravação do Concerto nº 23 para Piano e Orquestra, de Mozart. Grimaud queria tocar a cadenza de Busoni e Abbado preferia a de Mozart. É raro pianistas criarem suas próprias cadenzas. Poucos têm essa capacidade improvisativa, tão comum no jazz. A francesa não foge à regra.
Abbado concordou e a registrada foi a escolhida por Grimaud. Depois que a orquestra foi dispensada, este pediu que ela gravasse a de Mozart, separadamente. Quando a Deutsche Grammophon enviou a gravação para a aprovação de Hélène, esta percebeu que a cadenza que escolhera fora substituída. Nos bateres de pés, o disco não saiu: disse que a parte do solista quem decidia, por direito, era ela.
Pegou mal para Abbado. Manchou a reputação do defensor do meio ambiente, criador de uma orquestra de jovens da Europa e ainda, historicamente ligado ao Partido Comunista Italiano. Bom, mas Abbado, apesar da fama de democrático, agiu como muitos de seus pares. Músicos têm relação problemática com maestros. É só lembrar do filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, ou até dos problemas enfrentados por Roberto Minczuk com membros da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro.
A personalidade decidida de HG, de certo modo, se reproduz nos rubatos vigorosos de seu estilo de tocar. Impressiona a clareza de digitação, mesmo em andamentos rápidos. É uma coisa que fica muito evidente em sua interpretação do Prelúdio nº 2 do Cravo Bem Temperado, livro 1, que está no álbum Grimauld Plays Bach (DG, 2008).
Impressionado com o andamento rapidíssimo que imprime à peça. resolvi ouvir outras para comparar. Comecei pelo meu Cravo preferido (ela muda de tempos em tempos), que é o de Sviatoslav Richter. Para minha surpresa, a dele é tão rápida quanto. A próxima que ouvi foi a de Glenn Gould, meu intérprete preferido antes de conhecer a de Richter. É bem mais lenta e sincopada (devido à velocidade imprimida por Grimaud e Richter, os contrastes são menores). Conclusão: preciso voltar a ouvir o Cravo de Gould. Fala-se menos dele nos dias de hoje. Seus pontos de vista idiossincráticos resultaram em discussões apaixonadas. São conhecidas as polêmicas com o violinista Yehudi Menuhim e com o maestro e compositor Leonard Bernstein. Era um gênio e em relação à Bach é a referência. Suas gravações das Suítes Inglesas e Francesas são as melhores, na minha opinião.
Sempre em relação ao 2º Prelúdio e Fuga do Livro 1 de Bach, a de Edwin Fischer, de 1930 e tanto, é tão acelerada quanto a de Grimaud e de Richter. A diferença do tempo de gravação entre as três é de um segundo apenas, enquanto a de Gould a duração é de 4:08 minutos, e a de András Schiff, 3:36 minutos, e a do jazzista que se aventura no erudito Keith Jarrett, 3:18.
Para as comparações, ouça o Prelúdio tocado por Hélène Grimaud, e a seguir, a de Glenn Gould.
A de Grimaud.
A de Gould.
Veja HG interpretando o 4º Concerto para Piano e Orquestra, de Beethoven.


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