quinta-feira, 26 de setembro de 2019
Nunca é demais um Jeff Buckley a mais
Ele foi o assunto de alguns posts neste blog e, provavelmente, não será o último. É um pouco por fascínio e incredulidade por mortes como a dele e, claro, por seu enorme talento.
Em 27 de maio de 1997, Jeff Buckley e o roadie Keith Foti pararam às margens do rio Wolf. Jeff disse que ia entrar na água. Enquanto Keith pegava algo no carro, entrou com roupa e tudo no rio, cantando “Whole Lotta Love”, de Jimmy Page e Robert Plant. Foi encontrado distante alguns quilômetros adiante, próximo ao rio Mississippi, dias depois. Tinha 30 anos e “Grace”, seu álbum de estreia, era sucesso entre o público e a crítica.
Por esses dias ando a ouvir o álbum duplo póstumo “Live at Sin-é” e também os registros encontrados posteriormente e lançados recentemente: “Live at Cabaret Metro, Chicago” (13/5/1995), “Live at Wetlands, New York” (26/8/1994), “Live at Columbia Records Radio Hour” (4/6/1995) e “Live from Seattle, WA” (7/5/1995). Como Buckley vende ainda, relançaram ainda os póstumos, em versões “expanded edition”: “Sketches for the Sweetheart” e “Mystery White Boy”. Saiu uma coletânea de números ao vivo, recentemente que não sei se são inéditas, mas é bem possível que estejam repetidos nos citados anteriormente: “In Transition”. Conclusão: não sou eu apenas a continuar interessado — e a ouvir — em Jeff Buckley.
Pouco antes de “Grace”
Apenas para situar, Jeff era filho de Tim Buckley, cantor popular em sua época, morto aos 28 anos por overdose de heroína. Em um show tributo ao pai, apresentou-se e chamou a atenção de alguns produtores. Na ocasião, conheceu Gary Lucas, do Captain Beefheart. Saiu da Califórnia e foi tentar a sorte em Nova York. Dentre os lugares em que apresentou-se, o Sin-é tornou-se o mais frequente. Nele, servia café e, uma vez por semana, às segundas-feiras, fazia um pequeno show.
O Café, situado no East Village, ficou pequeno para o público que passou a aparecer. O repertório era bem eclético: Bob Dylan,Van Morrison, Nina Simone, Billie Holiday, Leonard Cohen, e até Nusrat Fateh Ali Khan, seu Elvis Presley, como diz antes de cantar “Yeh Jo Halka Halka Saroor Hai”, em paquistanês. Mas incluía também músicas próprias, que depois fariam parte de “Grace”. Acompanhado apenas da sua guitarra. Interagia com o pequeno público e incluía riffs e trechos de Nirvana, The Doors e Led Zeppelin. Jeff não foi da geração que amava os Beatlers e os Rolling Stones, como cantava Gianni Morandi em sua canção-protesto “C'era Un Ragazzo Che Come Me Amava Beatles i Rolling Stones”. A sua foi a que cresceu ouvindo Led Zeppelin, que seu pai colocava na vitrola, quando era pequeno. Parece até ficção que tenha caminhado para a morte cantando “Whole Lotta Love”, segundo Keith Foti, quando desapareceu nas águas do rio Wolf.
Dramático
Ninguém fica impune amando Nina Simone. Nos registros do Sin-é não consta “Lilac Wine”. Mas está presente com “If You Knew”. Jeff queria ser Nina. Jeff gostava das chamadas “torch songs”, não especificamente relatando amores perdidos, porém no sentido de dar cores dramáticas às interpretações. Em “Mojo Pin”, número de abertura de “Gace”, misturam-se delicadeza, na voz lamentosa introdutória, e uma tristeza interior, que culmina em um grito torturado e dolorido.
Com o sucesso do primeiro álbum, Jeff sofreu a pressão da gravadora — e dele próprio, presumo —, para fazer outro tão bom quanto. Para a sua extrema sensibilidade, foi muito. Não conseguiu terminá-lo. Morreu antes. Segundo os legistas, não estava drogado ou alcoolizado e, concluíram que pode ter sido um acidente mesmo, e não, suicídio. É, entretanto, estranho ter morrido assim sem ter concluído o que seria seu segundo disco.
Sempre Jeff
Gerações que não viveram a época em que Buckley surgiu, têm a oportunidade de conhecê-lo com os relançamentos e com os registros de apresentações ao vivo disponíveis agora. Aos que o conheceram quando foi lançado “Grace”, nunca é demais ouvi-lo nessas gravações que foram sendo reveladas depois. Em cada uma há diferenças do modo como interpreta as mesmas canções, tantas vezes repetida. É como deleitar-se com as sutilezas de um amor eterno, aquele amor que nasceu em ‘Grace” e é sempre lembrado.
No ao vivo no Sin-É, não há registro de “Lilac Wine”, um dos números mais emblemáticos do repertório de Jeff. Há, entretanto, outra “torch song” clássica. Ouça sua versão matadora de de “Strange Fruit”.
Ouça “Mojo Pin”, em registro de 1994, no Wetlands, em Nova York. É uma faixa bem mais longa do que a gravação em estúdio. É interessante, porque fica reforçado seu gosto pela forma lamentosa de interpretação. Essa versão de quase 15 minutos é excepcional.
Ouça uma versão longa de “Lilac Wine”. Esta é do ao vivo no Columbia Records Radio Hour, Nova York, em 4 de junho de 1995.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário