quinta-feira, 13 de junho de 2019

Ben Monder, só ou acompanhado


Pense em alguém tocando violão em uma pequena reunião de amigos. Mas não: é Ben Monder tocando guitarra solo em seu álbum mais recente, “Day After Day”. Dividido em duas partes, a primeira, é composta de sete músicas, com alguns standards — “Emily”, “Never Let Me Go” e“Dreamsville”. Na segunda, Monder é acompanhado de Matt Brewer e Ted Poor.

São dois momentos, mais ou menos opostos. Com seu trio, o guitarrista explora alguns temas, que, se não são standards, são hits, como “Only Yesterday”, dos Carpenters, “Goldfinger”, tema de um dos James Bond, consagrada na voz de Shirley Bassey, “Just Like a Woman”, de Bob Dylan, e “Guitar Man”, da banda Bread.

E são momentos bem diferentes dos álbuns mais recentes que gravou pela ECM. , como “Absence” (2018) e “Amorphae” (2016). Nestes, a guitarra de Monder se presta a momentos mais climáticos, bem ao estilo da gravadora de Manfred Eicher. O primeiro é em formato trio, com o pianista estoniano Kristjan Randalu e o baterista Markku Ounaskari. Em “Amorphae”, tocam com ele Pete Raede nos sintetizadores e os bateristas Andrew Cyrille e Paul Motian. Não. Não há nenhuma música em que Cyrille e Motian tocam juntos. Este último e Monder planejavam fazer um álbum em duo. Mas Motian morreu em 2010. Ficaram dois registros, “Oh, What a Beautiful Morning”e “Triffids”, que estão nesse álbum. Ben foi um dos três guitarristas da Paul Motian Band, em “Garden of Eden” (ECM 2006). Os outros: Steve Cardenas e Jakob Bro.

Guitarristas nascidos depois dos anos 1950, naturalmente, sofreram uma influência bem grande do rock. Saem um pouco do modelo de um Jim Hall ou Wes Montgomery. Monder teve um aprendizado formal sólido, estudando em conservatório e universidade de música. O rock é uma linguagem subjacente no seu modo de tocar, como, provavelmente, na grande maioria dos guitarristas com menos de 50 anos. Apesar de não ser o modelo “what can a poor boy do/ Except to sing (play) for a rock’n roll band”. 

Tocou e acompanhou músicos do jazz, como Jack McDuff, Lee Konitz e foi também da orquestra de Maria Schneider. Seu lado, digamos roqueiro, está na participação em “Blackstar”, derradeiro álbum de David Bowie. Melhor seria dizer que Bowie pendeu ao jazz ao optar por tocar com o saxofonista Donny McCaslin, o tecladista Jason Lindner e o baterista Mark Giuliana, e não o contrário.

Além de “Amorphae” e “Absence”, na ECM, o americano está presente em “Elegy”, de Theo Bleckmann, de quem tem sido parceiro frequente desde os anos 1990. T

Volto ao recente “Day After Day”. A parte solo, como disse no parágrafo inicial, tem esse clima de “descompromisso”. É como se Monder tivesse se sentado em seu estúdio e colocado o gravador em funcionamento para registrar o que resolvesse tocar. Ao contrário das guitarras de “Amorphae” e “Absence”, aqui, é uma guitarra sem efeitos.

Na segunda parte, continua “descompromissado”, só que com um baixista e um baterista que, de certo modo, são apenas coadjuvantes, sem executarem solos, como é de costume entre trios de jazz. Os efeitos, em que Monder é um mestre incontestável, apresentam-se em alguns poucos momentos, como em “Goldfinger”, de John Berry, que merece essa “espetacularidade”, e no tema final “Day After Day”. Nesse exemplos, lembra o guitarrista dos mil efeitos, principalmente neste, um solo espacial, com overdubs. Final maravilhoso.

Ouça algumas faixas dos álbuns citados. As três primeiras da playlist são de “Amorphae”, as duas seguintes, de “Absence”, e as restantes, de “Day After Day”.

 



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