quinta-feira, 20 de junho de 2019
O belo e o insólito com Near East Quartet
Definitivamente, a língua da música é universal. Seja cantada em esperanto, grego ou turco, as palavras se convertem em sons e não existem mais fronteiras. Mesmo desconhecendo outras línguas, fonemas se transformam em sons. É o que me veio à mente ao ouvir o álbum “Near East Quartet” da banda formada por Sungjae Son no saxofone tenor e clarineta baixo, Suwuk Chung, guitarra, Soojin Suh na bateria, e Yulhee Kim nos vocais.
É o primeiro que lançam por um selo de prestígio como a ECM, o que para o mundo ocidental representa muito. No site da gravadora, registra-se que existem desde 2010. É tempo suficiente para terem um conceito sonoro consolidado. Pelo que apresentam nesse disco, fica claro que a qualidade da música que executam não se circunscreve ao universo da música coreana, por mais que a desconheçamos. É uma demonstração clara da universalidade da música, em um tempo em que não existem mais barreiras entre nações, e qualquer informação está disponível no ponto mais longínquo dos principais centros. Regionalismos, para o bem ou para o mal, diluem-se sob o poder avassalador das culturas mais ricas.
Vamos combinar: a Coreia do Sul não é mais terceiro mundo há um bom tempo. Após o domínio japonês sobre a Coreia, que iniciou-se em 1919 e findou com a derrota dos súditos do rei Hiroíto e, posteriormente, dividida em dois, cresceu muito e está na vanguarda da tecnologia. E, culturalmente, sempre levaram a sério a música. Na música erudita, despontam muitos pianistas e violinistas excepcionais.
Tanto o líder Sungjae Son, como Suwuk Chung e Soojin Suh estudaram nos Estados Unidos. A conexão com a música coreana não é tão clara, mesmo que três das composições do álbum sejam temas tradicionais, e cantadas na língua original. Pode ser um pouco inconsequente afirmar isso, já que acho que nunca ouvi uma canção tradicional coreana e muito menos esse tal de k-pop, que faz tanto sucesso no ocidente.
Por isso, escuto Near East Quartet com ouvidos de um ocidental. E imagino que uma formação com saxofone — ou clarineta baixo — e guitarra dentre os principais instrumentos não seja tão coreana de raiz. Na percussão, talvez, sim. A batida de Soojin Suh é bem original. No genérico, a associação automática é com “som ECM”.
O álbum começa de forma impactante. “Ewha”, composição de Son, tem introdução com bateria, sax tenor e uma guitarra com bastante efeito, que lembra um pouco a de Ben Monder em seus últimos álbuns que lançou pela ECM, como líder. “Ewha” é climática e tensa na batida vigorosa de Soojim Suh. “Mot” é um tema tradicional coreano. Novamente, o que dá o clima é a guitarra de notas longas e efeitos hipnóticos e o sax tenor de tons graves que acompanha o lamento de Yulhee Kim. Bela canção.
Os sons iniciais da guitarra de Chung lembram mais uma vez Ben Monder na outra composição original de Chung, “Baram”. Notas de clarineta baixo, a bateria marcial de Suh, praticamente, são uma continuidade da anterior, reforçada pela voz de Kim. Sempre gostei dessas guitarras etéreas. Suwuk Chung é um nome que devo guardar.
No tema tradicional “Galggabuda”, as emoções se moldam em um solo contemplativo de Chung, sem a pirotecnia que sempre imaginamos de um músico formado no jazz. Mas, não, ele simplesmente almeja o belo, e o belo não precisa de profusão de notas. Ele pode estar no silêncio ou na simplicidade, como na minimalista “Garam”.
Perto do que ouço até agora, “Pa:do” é a faixa “heavy metal”, pelas guitarras sobrepostas, a mudança abrupta de andamento, e a bateria ótima de Suh. Final abrupto. “Ebyul” é um pouco decepcionante perto do que ouço até então. Mas é o que acho e nem tanto o que outros podem achar. “Jinyang” é a última e, funciona como uma conclusão. É apoteótica e breve, quase tão “heavy metal” como “Pa:do”. É um disco com pouco mais de 36 minutos. Poderia ser mais longo.
Ouça o álbum.
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