É bem conhecida a história de que Django Reinhardt não tinha movimento em dois dedos da mão esquerda devido a um acidente doméstico. Mesmo assim é considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. É onde entram o “apesar de”, ou “mesmo assim”.
Algumas limitações físicas podem ser impedimentos para algumas atividades. Existe um número significativo de músicos cegos. Enxergar não parece ser um empecilho efetivo. De todos, o que ficou mais conhecido foi Ray Charles. Além da voz abençoada, tocava piano e saxofone e prendado de enorme carisma naquele seu jeito “balouçante” de caminhar e tocar. Como uma brincadeira de que, na verdade, “vê” muito bem, lembram-se de uma cena em The Blues Brothers? Ray encarna um vendedor de uma loja de instrumentos musicais. Um menino tenta surrupiar uma guitarra (era isso? Não lembro direito; vi há algumas décadas). Ray pega um revólver e enxota o pretendente a larápio. A música é uma arte bem mais abstrata que a pintura. Sua beleza ecoa pelo ar. Não é vista.
A música popular é o “lugar” natural desses intérpretes cegos. em sua maioria, nascidos em regiões muito pobres. No Brasil, na região nordestina, encontram-se muitos repentistas, rabequistas e sanfoneiros cegos apresentando-se nas ruas e feiras. Alguns dos mais conhecidos intérpretes do blues são cegos… e negros: Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Blind Willie Jonhson. Poucos tiveram aprendizado formal. “Apesar de” ou “mesmo assim”, ficaram conhecidos devido aos seus talentos, principalmente. É natural haver certa mistificação sobre essas figuras: “apesar de cegos são bons”.
No jazz, não é diferente. O multi-instrumentista Rahsaan Roland Kirk é um deles. Era um pouco estranho aquela figura de óculos escuros com três ou quatro instrumentos pendurados no pescoço apresentando-se. Mais estranho era o fato de que tocava mais de um ao mesmo tempo. Kirk tocava sax-tenor, manzello, flauta e outros instrumentos de sopro. Conseguia tocar flauta com o nariz. Se não fosse bom caberia bem como atração circense. Mas o maluco não só tocava tantos instrumentos como produziu uma música que explorava gêneros como o swing, o bebop, o free jazz e até o pop.
A seara que abrigou uma enormidade desses grandes talentos, no entanto, foi a dos teclados. O maior deles foi Art Tatum. Cego de um olho e quase sem enxergar do outro, gravou centenas de músicas em brilhantes interpretações. Suas mãos dançavam sobre as teclas, literalmente. Era um poço criativo. Basta comparar interpretações de uma mesma música. Cada interpretação de uma mesma música, era única..
No jazz, não é diferente. O multi-instrumentista Rahsaan Roland Kirk é um deles. Era um pouco estranho aquela figura de óculos escuros com três ou quatro instrumentos pendurados no pescoço apresentando-se. Mais estranho era o fato de que tocava mais de um ao mesmo tempo. Kirk tocava sax-tenor, manzello, flauta e outros instrumentos de sopro. Conseguia tocar flauta com o nariz. Se não fosse bom caberia bem como atração circense. Mas o maluco não só tocava tantos instrumentos como produziu uma música que explorava gêneros como o swing, o bebop, o free jazz e até o pop.
A seara que abrigou uma enormidade desses grandes talentos, no entanto, foi a dos teclados. O maior deles foi Art Tatum. Cego de um olho e quase sem enxergar do outro, gravou centenas de músicas em brilhantes interpretações. Suas mãos dançavam sobre as teclas, literalmente. Era um poço criativo. Basta comparar interpretações de uma mesma música. Cada interpretação de uma mesma música, era única..
Outro quase tão genial foi Lennie Tristano. Sua música era harmônica e melodicamente intrincada, sofisticada e angulosa. Antecipou, de certo modo, Bill Evans. Depois de tanto tempo de quando foram gravadas, suas composições e mesmo interpretando standards, não perdeu a contemporaneidade. Seus solos em acordes vigorosos, meio “quebrados”, são brilhantes na sua maneira percussiva de marcar os ritmos no registro mais grave do piano.
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| Shearing “esbarra” em Stevie Wonder |
Veja Tormé e George Shearing em “Lullaby of Birdland”. É um clássico na voz do americano.
Outro pianista muito bom, pouco conhecido — ou pouco reconhecido? — foi Chris Anderson. Sabe-se que foi professor de Herbie Hancock. Gravou pouco. Além de cego, tinha problemas sérios ósseos. Faleceu em 2008. Existe uma gravação excepcional em catálogo, que fez com o baixista Charlie Haden. Respeitosamente, Haden é quase que um acompanhante. É ele que ouvimos em Body and Soul.

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