Um filme de Diego Luna
Cecilia (Karina Gidi) tem o nariz um pouco menor que o da espanhola Rossy de Palma, presença frequente dos filmes de Amodovar. Anselmo (José María Yazpik), o marido “sumido” é quase ou tão narigudo quanto. Não falta nele um bigodão, daqueles de fazer inveja ao que o jogador brasileiro Rivelino usava quando foi campeão mundial em 1970, no México.
Têm três filhos. Um deles, Abel, sofre de alguma anomalia psicológica, mas mesmo assim, a mãe resolve tirá-lo da clínica e deixá-lo em casa enquanto não resolve se o interna definitivamente num lugar especializado em cuidar de crianças com problemas mentais, na Cidade do México. Nos primeiros dias, o menino não dorme e permanece mudo. Quando resolve falar passa a agir como se fosse o chefe da família. Veste o pijama do pai, dorme do lado da mãe e dá bronca nos irmãos.
Dois anos depois de ter saído de casa a pretexto de trabalhar no EUA, de surpresa, o marido retorna. Ninguém o esperava. Abel o vê como intruso e não como o pai. Cecilia, a conselho médico, prefere dizer que Anselmo é um primo ou qualquer outra coisa para não contrariar a crença do menino de que é o chefe da família.
A observação quanto aos narizes de Cecilia e de Anselmo não é sem propósito. No filme todo mundo é feio e pobre. Não é um filme de Holywood. O apelo não é pela beleza estética. A qualidade dele é a de mostrar as coisas como elas são mesmo.
Na cena abaixo, Anselmo reaparece; Abel, ao vê-lo à mesa, pergunta quem ele é. Ele diz: seu pai. Ele não o reconhece como tal, pois ele é o “pai”.
Cópia Fiel (Copie conforme, 2010)
Um filme de Abbas Kiarostami
Alguns exemplos na cinematografia de Kiarostami levam a crer que tem uma fixação especial por automóveis. Em Gosto de Cereja, o protagonista planeja cometer suicído e enquanto não se mata, fica rodar de carro o filme todo. Em 10, a atriz Mani Akbari passa o tempo todo dirigindo um carro, ora com o filho e em outras, com mulheres (a irmã, uma prostituta, uma que está noiva etc.). O filme todo está calcado nos diálogos que acontecem dentro de uma perua SUV. Não é para todos os gostos, sem dúvida. Abbas tem uma legião de fãs que não perde nenhum de seus filmes, quase sempre exibidos pela primeira vez nas mostras anuais de cinema em São Paulo e no Rio. O colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, uma vez, fez um comentário ótimo: as pessoas ficam duas horas na fila esperando entrar para assistir aos filmes do iraniano e passam duas horas aflitos esperando terminar. Esclareço que não sou desse time.
Não tinha muita expectativa quanto ao seu mais recente filme rodado na Itália com atores europeus. O texto tem vários momentos de brilho, a começar pelo título Cópia Fiel, relacionado às réplicas de obras de arte, como o Davi, que fica em frente à Galleria dell’Accademia, em Florença.
O escritor James Miller (William Shimell) é esperado para proferir uma palestra. Chega e desculpa-se pelo atraso. Logo depois, chega Julliette Binoche e minutos depois, o filho da francesa, que fica postado, em pé, em uma das laterais da sala. Ambos ficam pouco e logo, saem. A mulher combina um encontro com James e saem de carro, sem destino, aparentemente. Um dos dois diz gostar de sair assim, “por aí”. O carro, de novo. Será a “marca registrada” de Kiarostami? A tomada é feita de fora, enquadrando os dois. É interessante, pois as construções ficam refletidas no para-brisa. Separados fisicamente, motorista e passageiro, são vistos “por trás” das construções ao longo das ruas, no meio, a imagem do céu refletida. No carro, os diálogos versam mais sobre a arte, sobre o que é realmente original. Essa reflexão acerca da originalidade deriva para os exemplos fora da arte.
Quando chegam num vilarejo chamado Lucignano, o foco passa a ser sobre o relacionamento homem x mulher. Uma frase solta: não vale a pena vivermos infelizes por um ideal. Pode ser filosofia barata, mas como essa, várias se encaixam em algum momento de nossas vidas ou do que pensamos um dia.
Tem surpresas, mas é bom não contar.
Um trecho:
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