segunda-feira, 1 de novembro de 2010

34ª Mostra de Cinema: as voltas de Michelangelo Frammartino

As Quatro Voltas (Le Quatro Volte, 2010), de Michelangelo Frammartino, é um filme belíssimo, sem diálogos, e tem cara de documentário. Os sons são os da paisagem, o das cabras pastando, o latido de um cão. A primeira parte é a de um velho cuidador de um rebanho. Diariamente o velho e alquebrado pastor leva suas cabras pelas montanhas da Calábria para pastarem. Tira-lhe o leite e todos os dias deixa um litro na igreja. Em troca, recebe um papelote contendo o que parece serem cinzas. Ao deitar-se mistura o “pó” num copo d’água: é o seu “remédio” diário. Na noite em que deixa de tomá-lo – tinha caído de seu bolso quando estava no campo – morre.

O cuidador do rebanho toma seu remédio “milagroso”
Assistimos ao fim de um ciclo: a de um homem que deve ter cumprido a mesma rotina a vida toda e encontra-se perto do fim. Depois de presenciarmos a morte, temos a dádiva do nascimento. Uma cabra dá à luz. Acompanhamos seu desenvolvimento, o confinamento com outros filhotes enquanto não podem sair para o pastoreio e a primeira vez em que sairão com os animais adultos. Um deles cai em uma vala e se aparta do rebanho. Tem as mesmas características daquele que foi mostrado nascendo. É inconcluso, mas há algum distanciamento do espectador em ver cenas rurais. Não parece existir o propósito de nos fazer ficar emocionados com as perdas. São voltas, ciclos, sejam dos humanos, sejam da natureza.

Há o evento da derrubada de uma árvore enorme que será carregada até a aldeia por seus habitantes e visitantes. Tiram-lhes os galhos e a casca, é alçada e alicerçada de tal modo que fique de pé. Alguém tenta atingir-lhe o topo, galgando-a como naquelas competições de pau de sebo. O fim da festa consiste em trazê-la ao chão novamente. Fecha-se o ciclo quando vem um caminhão e leva o tronco, já serrado em partes, que virará carvão. Presenciamos o trabalho paciente de homens juntando os galhos e outros pedaços de madeira em bela forma arquitetural para serem queimados em processos ancestrais para virarem carvão mineral a ser usado na calefação das residências na época fria. Às nuvens de fumaça produzidas para a feitura do carvão formam névoas brancas fundindo-se no verde das árvores: florescimento e morte na mesma imagem. O ciclo se fecha quando o caminhãozinho transporta sacos de carvão para os moradores da aldeia.

Veja o trailer:


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