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| Ronaldo Bôscoli e Elis Regina: um casal feliz? |
Assistir à minissérie – não vi o filme quando exibido nos cinemas – “Elis – Viver é Melhor que Sonhar” seria uma boa chance de reavaliação. Foi uma tremenda cantora, devo considerar. Continuo preferindo a Gal Costa dos primeiros anos. Questão de gosto. Agora, a atriz Andréia Horta subiu no meu conceito. Magnífica Elis. Nem dá para pensar alguém mais adequada para o papel.
Nesses filmes biográficos ficamos a ver o quão próximos são do real. Não li “Furacão Elis”, escrito pela jornalista Regina Echeverria. Muito do que eu sei da carreira de Elis é por meio de “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1990) e do que li sobre ela em jornais e revistas. Acredito que os roteiristas usaram muito do que foi escrito no livro de Ruy Castro.
Uma é a de quando ela vai ao Rio de Janeiro fazer um teste para a peça “Pobre Menina Rica” e ouve palavras não muito lisonjeiras de Antônio Carlos Jobim. Pelo que consta no livro, Jobim teria afirmado: “Essa gaúcha é muito caipira. Ainda está cheirando a churrasco.” No filme não são essas palavras, mas percebe-se que a fonte pode ter sido o texto de Ruy Castro. O que ela soube, por Carlos Lyra, autor da canção, com Vinícius de Moraes, é que Jobim não a achara adequada para o papel. Mas ficou a bronca. Demorou para gravar alguma composição do autor de “Chega de Saudade”.
Elis não ficou inimiga de Tom, mas de Ronaldo Bôscoli, sim. Desde quando se conheceram, no Rio de Janeiro, a antipatia foi mútua.
O início
Em 26 de outubro de 1964, no show “O Remédio é Bossa”, no teatro Paramount, em que se reuniam Marcos Valle, Antônio Carlos Jobim, Alaíde Costa, Sylvia Telles, Carlos Lyra, Os Cariocas, Vera Brasil, Walter Santos, Vinícius de Moraes, Oscar Castro Neves, Paulinho Nogueira, Pedrinho Mattar, Zimbo Trio, Roberto Menescal e Quarteto em Cy, a participação por 30 segundos de Elis Regina, cantando um trecho de “Terra de Ninguém”, hipnotizou o público. Segundo Ruy Castro, “nascia uma estrela – grande demais para caber nos palcos para pulgas do Bottle’s e do Little Club.”
Pouco antes, com o furo da promessa feita pelo produtor Armando Pittiglani, ao vê-la cantar em Porto Alegre, de lançá-la no mercado fonográfico, obrigou-a a sair atrás de algum lugar que pudesse cantar e ganhar um dinheiro e não ter de voltar de mãos abanando à sua terra natal. Foi assim que conheceu Bôscoli, que em dupla com Luis Carlos Miele, produzia shows para as melhores boates do Rio de Janeiro.
Em pouco tempo, Elis ganharia um programa na TV Record, com Jair Rodrigues e o Jongo Trio. “O Fino da Bossa” foi um tremendo sucesso, mas começou a perder audiência. Enquanto isso, o programa dominical “Jovem Guarda”, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderléa, explodia.
A direção da TV Record resolveu contratar a dupla Miéle-Bôscoli para salvar “O Fino da Bossa” do naufrágio. Elis odiava Ronaldo desde o dia em que se conheceram. E agora, iam trabalhar juntos.
O improvável aconteceu, no entanto. Pouco tempo depois de passarem a trabalhar juntos na Record, estavam casados. Carlinhos de Oliveira, o folclórico cronista do Jornal do Brasil, ao anunciar o casamento, escreveu: “Elis Regina terá para sempre o consolo de saber que a guerra do Vietnã é muito pior.”
Aqui, entra Frank Sinatra na história. Bôscoli dizia: “Gosto mais de Frank Sinatra do que de mulher.” E olhe quem dizia! O produtor e letrista era o que se chamava antigamente, um tremendo “rabo de saia”. Namorou Maysa e Nara Leão, para citar apenas as cantoras. Tremendo mulherengo, sentiu na carne as consequências de sua cafajestice. Depois de uma briga, ao voltar para o apartamento, viu toda a sua coleção de LPs e raríssimos discos de 10 polegadas de Frank Sinatra atirada “como discos voadores, no Oceano Atlântico. Alguns dos discos não haviam chegado ao mar e podiam ser vistos, como peixes mortos, na pista da av. Niemeyer”, escreveu Ruy Castro, em “Chega de Saudade”.
O casamento não durou muito tempo.
Ouça a música-título de Only the Lonely”, de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn. É um dos grandes álbuns de Sinatra, de sua fase na Capitol Records. Nessa época, Frank encontrava-se no auge da dor pelo fim do casamento com Ava Garner.
Anos depois de ter sido chamada caipira por Tom, passou a raiva. Gravaram, em 1974, o antológico “Elis & Tom”. Ouça “Águas de Março”.
Ouça o disco na íntegra.
Nota final
No filme, Elis joga uns poucos LPs. Foi por conta dessa cena que resolvi escrever esse texto. Tudo o que foi citado está em “Chega de Saudade”, de Ruy Castro.

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