Uma amiga disse, em relação à Cassandra Wilson, de que a cada disco que grava, canta “mais devagar”. Entendi o que quis dizer. Não é pelo tipo de canções que escolhe para cantar, apesar de poucas serem uptempo. É mais pela forma de abordagem. Cooperam também o registro grave da voz e a interpretação sem muitos contrastes entre agudos e graves, sem arroubos.
O CD Traveling Miles (1999), conceitualmente, é uma “viagem” sobre os temas de Miles Davis – e também um trocadilho com Travelin’ Light – composição de Johnny Mercer. Alguns temas são de sua própria verve – as letras também –, algumas do trumpetista e outras que o mesmo gravou. Serve como exemplo comparativo aos originais e à forma única de suas leituras musicais. Influi, decerto, a formação instrumental. Fugindo do formato mais tradicional do jazz – piano, baixo, bateria, mais um instrumento de sopro –, na utilização forte da percussão e no acompanhamento de violões, guitarras elétricas e exploração de instrumentos de cordas diferentes como o mandolin, mandocellos, bazouki (uma espécie de mandolin grego), o som resultante dessa mistura é, no mínimo, peculiar.
Um exemplo é a conhecida balada Blue in Green, gravada pela primeira vez no clássico Kind of Blue – creditada a Miles, mas original de seu pianista à época, Bill Evans. A frieza que passa se deve a certa “desdramatização” do que é dramático. O mesmo acontece com Time After Time, de Cindy Lauper, que o trumpetista gravou em You’re Under Arrest (1985) – nesse CD registrou Human Nature, conhecida na voz de Michael Jackson, outra música identificada com a linguagem pop –, se bem que menos. No clássico Someday My Prince Will Come, tema de Branca de Neve, de Walt Disney, a impressão é a mesma. Não significa, no entanto, que sejam chatas; são diferentes.
A última fase de Miles Davis é a de 1979 até sua morte. Recuperado do uso excessivo de drogas ilegais, voltou a gravar e a se apresentar. Rodeado de músicos mais jovens seu retorno ao mercado fonográfico foi com o disco The Man with the Horn. Um deles era o baixista Marcus Miller. Essa parceria estreitou-se e resultou no melhor disco de “Miles Elétrico – O Retorno” – Tutu (1986) – e num registro ao vivo com uma interpretação de My Man’s Gone Now absolutamente bela – We Want Miles (1982). Compuseram uma bela trilha sonora para o filme Siesta (1987) também. Pois, então, um dos destaques é Tutu, reintitulada Ressurrection Blues, lyrics de Wilson. Ouçam.

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