terça-feira, 22 de setembro de 2015

O sax selvagem de George Adams

O sanpaku George Adams
O que não falta no jazz, além de muita música e drogas, é valentão. Um deles foi Ben Webster. Um doce de pessoa, bastava beber alguns goles de cerveja, que fazia de vítima quem estivesse mais perto. O saxofonista Jimmy Heat, na autobiografia I Walked with Giants, conta que em um festival em que se apresentava com seus irmãos Percy e Tootie, na Itália, presenciou uma discussão de Elvin Jones com seu saxofonista Steve Grossman. Elvin, simplesmente, deu um murro na boca de Steve.

Mas valentão mesmo foi Charles Mingus. Gostava de alimentar sua fama de mau, e, realmente, metia medo em muita gente. Um dos que não o temia foi George Adams, saxofonista das últimas formações da banda do baixista. Adams chegou ao ponto de mostrar uma faca a Mingus e dizer que não vacilaria em usá-la. George sabia com quem tratava. Mingus tinha um comportamento errático, dado a momentos de fúria. Em uma delas, destruiu seu contrabaixo. Jimmy Heath afirma em I Walked with Giants que nunca teria tocado com Mingus: “Amava sua música, mas eu nunca quis tocar com ele porque me sentia intimidado.”

George não tinha do que temer. Se o “patrão” tinha cara e fama de mau, ele, um negro alto e forte, olhos sanpaku, também tinha. Sua figura combinava com seu estilo ao saxofone tenor. Tinha algo de selvagem no ritmo que empregava tocando cascatas de notas, saindo do tom médio, descendo uma oitava e saltando para a terceira em grunhidos que, por sinal, o Conde, um dos meus mestres, que por muito tempo manteve um programa de jazz na rádio Cultura, odiava. Com suas opiniões, muitas vezes, idiossincráticas, e com a autoridade que bem combinava com seu vozeirão, um leve sotaque carioca que nunca perdeu, apesar de nascido em Cruzeiro, no interior paulista, quase fronteira com o estado do Rio de Janeiro e morador da capital paulista por quase cinco décadas, dizia que George Adams não tocava; relinchava. Outro juízo que fazia, bem discutível, na minha opinião, era a de que Ben Webster não tocava; assoprava. Detestava aquele som cheio de Ben, volumoso, sim, com muito ar. Eu não concordava. Webster, com Coleman Hawkins, Lester Young e Dexter Gordon estavam no topo do panteão do meu instrumento preferido no jazz. E George era outra das minhas paixões. Não cansava de ouvir Mingus Moves, Changes One e Changes Two, álbuns de Charles Mingus em que participava, muito em razão pelo encanto de ouvir o saxofone de George, cheio contrastes cromáticos, passando do som mais doce  e terno ao mais frenético, de uma selvageria primitiva, em lamentos primais.

Ouça Canon, de Mingus Moves. Atenção às passagens do sax de Adams.






Uma das grandes baladas de Mingus é Duke Ellington’s Sounds of Love. Grande solo do tenor de Adams a partir dos de 4:37 min.






Adams atacava de cantor também. Seu estilo e sua voz áspera combinavam bem com o seu saxofone, bem blues shouter. Confira em Devil’s Blues de apresentação no Festival de Montreux, em 1975.





Com esse talento explosivo, George teria de gravar como líder. Em 1979, lançou dois álbuns excepcionais: Paradise Space Shuttle (Timeless Muse) e Sound Suggestions (ECM). No último, toca com o também tenor Heinz Sauer (sobre ele leia: http://bit.ly/1ONPbem), Kenny Wheeler, Richard Beirach, Dave Holland e Jack DeJohnette. Em Paradise Space Shuttle, o quinteto é composto por Ron Burton, Don Pate, Al Foster e o percussionista Azzedin Weston. Neste LP, executa um excepcional Send in the Clowns, do mestre Stephen Sondheim.

Ouça.





Em Sound Suggestions, Adams se sujeita à placidez do estilo ECM. Mesmo assim, tem seus momentos de “selvagem”, cantando e tocando. Ouça Got Something Good for You.





Lançou outros álbuns como líder, não tão bons quanto Paradise Space Shuttle, e vários com seus ex-companheiros Don Pullen e Dannie Richmond, da banda de Charles Mingus. Estes são melhores. Veja Adams com Pullen, Cameron Brown e Richmond em Song from the Old Country.





George morreu aos 52 anos, em 1992. Muito cedo. É uma pena.

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