terça-feira, 7 de dezembro de 2010

The Boy in the Bubble por Peter Gabriel

David Vetter, o menino que viveu dentro da bolha
David Vetter nasceu com um problema no sistema imunológico impedindo-o de ter algum contato com o mundo externo. A Nasa construiu uma modalidade de bolha em que o ar era triplamente filtrado para impedir que entrasse algum tipo de germe nela. Foi o que o destino reservou ao pequeno David: viver dentro de uma bolha. Para que pudesse “dar uma voltinha” de vez em quando, como qualquer criança normal, criaram uma roupa especial para que pudesse sair da bolha, mesmo que, por alguns momentos. Tentaram um transplante de medula, sem sucesso. David viveu doze anos.

Produziu-se um filme inspirado nesse episódio, com John Travolta, em 1976. Nesse ano, David ainda estava vivo. A imagem da bolha é sugestiva: é bolha porque, numa hora, estoura. Em 1986, Paul Simon lançou Graceland. Não é o pioneiro em mesclar sons africanos com os ocidentais. Conseguiu, no entanto, um equilíbrio raro, bem diferente da música tipo “pacote turístico”. A quantidade de músicos, partícipes do projeto, é algo surpreendente. É uma verdadeira “legião estrangeira” e são de vários gêneros musicais, aparentemente, irreconciliáveis. Fizeram parte dele desde músicos associados ao country-folk, como Linda Ronstadt, Everly Brothers, “roqueiros” como Adrian Belew, jazzistas como John Faddis, Lew Soloff, Ronnie Cuber e Randy Brecker, e, principalmente, africanos das mais diferentes etnias. Graceland não atingiu o primeiro lugar nos EUA, mas na Inglaterra, no Canadá e na França, sim. Mesmo, depois de tanto tempo, resiste bem. Pois, quem abre o disco é uma música chamada The Boy in the Bubble, composição de Paul com o africano Forere Motloheloa. É excepcional. Tem uma levada que combina o som do acordeão de Motloheloa com um baixo, contagiante. Os dois opostos combinam-se: a natural melancolia da voz de Simon e a “expansividade” dos sons africanos.

Paul Simon: a calvície não é 
exclusividade de Peter Gabriel
Não há na música alguma alusão clara ao drama do garoto da bolha. Só se “The way we look to a distant constellation/ That's dying in a corner of the sky,/ These are the days of miracle and wonder/ And don't cry baby don't cry/ Don't cry”, ou “Medicine is magical and magical is art think of/ The Boy in the Bubble/ And the baby with the baboon heart” têm algo a ver com o caso de David ou de outro que teve problemas semelhantes.

Depois de um tempo sem gravar, sem muito estardalhaço, Peter Gabriel lançou Scaratch My Back. O tempo “fez coisa”. Assumiu a calvície, os cabelos embranqueceram e, hoje cultiva um charmoso cavanhaque. Passa a impressão que está em paz consigo. O plot de Scratch My Back (já falei sobre isso em outro post: http://bit.ly/g0Jzhd) foi o de gravar covers. Uma das escolhidas foi The Boy in the Bubble. Sua interpretação segue a tônica do resto do CD. É um disco melancólico, no geral; em algumas horas, dramático. Os arranjos orquestrais são de John Metcalfe, músico que participou do Durutti Column, de Vini Reilly. Está explicada a razão de tanta melancolia.

Em certas coisas, as pessoas não mudam demais. Se se pensar na carreira de Gabriel desde a banda Genesis, mesmo em músicas que são “para cima”, como Sledgehammer ou Shock the Monkey, há um componente dramático (principalmente) e melancólico.

Não existe um registro de boa qualidade em vídeo de The Boy in the Bubble (esse, de Verona, deve ter sido captada pela câmera de um telefone celular, mas se alguém tiver curiosidade, acesse http://bit.ly/hjsLZE).  Outra opção é ouvi-la no YouTube, apenas com a imagem da capa.

Um comentário:

  1. aqui uma versão linda de Peter Gabriel para "The Boy in the Bubble" (New Blood Orchestra)

    https://youtu.be/_Fv1hkwGbdQ?si=Np1YNS-SSzqsxL_v

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