E não lembra também a de alguns a do menino que cresce solitário, quase sem diálogo com seus irmãos, que não gostava de jogar futebol na rua, como os outros de sua idade, e em vez das aulas, preferia ficar enfurnado na biblioteca?
Benjamin Clementine, filho de pais que emigraram de Gana, e cresceu em um subúrbio londrino é um deles. Em vez de aulas e futebol, preferia explorar a literatura de William Blake e a filosofia de Kant. A salvação, ou uma saída para a adolescência difícil, foi a música. A primeira vez em que se sentiu parte desse mundo foi quando ouviu as “Gymnopédies”, de Erik Satie. E a saída para expressar-se. No piano da casa, tentava reproduzir as notas do compositor francês. Ao mesmo tempo, descobria a música de Antony Heggart, do Antony * The Johnsons.
Se se sentia solitário em Londres, poderia ser um solitário em qualquer lugar do mundo. Talvez Satie o tenha inspirado para ir morar em Paris. Hospedou-se em hotéis de quinta categoria, dormiu na rua, trabalhou em restaurantes e arriscava-se em cantar em estações de metrô. Morando na França, descobriu a música de Jacques Brel, Edith Piaf, Leo Ferré e Barbara. A fusão da música deles e seu gosto pela de Antony Haggart resultou, de certa forma, na que Clementine gestava. Ondas favoráveis do destino possibilitaram a gravação de “Cornerstone”, em um EP. Foi o suficiente.
A força de versos confessionais, seu modo dramático de cantar versos confessionais, autobiográficos, de um lirismo dilacerante, envolto em ostinatos de grande efeito ao piano, a figura negra, cantando de olhos fechados, era de um efeito catártico sobre seus ouvintes.
Ao apresentar-se no programa de Jools Holland, pela BBC2, cantando “Estou só, só numa caixa de pedra/ Dizem que me amam mas estão todos mentindo/ Sou solitário sozinho na minha própria caixa/ E esse é o lugar ao qual pertenço agora.”, e completava: “It”s my home, home, home, home.” Nos bastidores, ouviu palavras encorajadoras de Paul McCartney.
Veja a apresentação.
Lançou “At Least for Now”, em 2015. Tem uma grande carreira pela frente. Ao ouvi-lo , lembramo-nos automaticamente de músicos díspares como Nina Simone, Scott Walker, Nick Drake, Tom Waits, Nick Cave e Jacques Brel. É uma comparação, antes de mais nada, positiva.
Ainda de “At Least for Now”, veja-o a cantar “Nemesis”.
Além de “Cornerstone”, outro destaque é “Quiver a Little”.
“Winston Chrchill’s Boy”, a música de abertura, abre a curiosidade para se conhecer melhor Benjamin Clementine. Ouça.
Uma última observação: a Inglaterra é pródiga em revelar grandes intérpretes de origem africana. Comecemos pela mais conhecida: a nigeriana Sade Adu. Nos dias de hoje, além de Benjamin Clementine, outro destaque é Michael Kiwanuka, filho de ugandenses. Outra muito boa, negra, mas de pai jamaicano e mãe grega, é Lianne La Havas, nascida em Londres.

Nenhum comentário:
Postar um comentário