quinta-feira, 23 de março de 2017

O compromisso de John Taylor com a beleza

Estou aqui a pensar: quando foi a primeira vez que o som do piano de John Taylor me chamou a atenção. Acho que foi em “Journey’s End”, de Miroslav Vitous. É de 1982, e vendo por sua discografia, descubro que era integrante do Azimuth, banda que tinha Kenny Wheeler e a cantora Norma Winstone, que agora, quando escrevo, descubro que foi mulher de Taylor. Posso ter ouvido o Azimuth antes de “Journey’s End”. Possível. Mas passados tantos anos, nem sei se isso importa mais. Importa que passei a prestar atenção e a gostar de John Taylor. É um daqueles que não procura o protagonismo, e no entanto, é autor de belas passagens musicais, seja como líder ou como acompanhante.

Escola Brasil: e a beleza
Luis Paulo Baravelli, Carlos Fajardo, José Resende e Frederico Nasser procuraram Wesley Duke Lee propondo-lhe que fossem seus alunos. Isso foi em 1963. Passaram dois anos tendo aulas com um dos artistas plásticos mais importantes da metade final do século 20. Os quatro, depois de terem sido alunos, resolveram montar a Escola Brasil:

Parece um tanto fora de contexto, citar a Escola em um texto sobre um pianista. Mas a razão, ou o que me faz lembrar de Baravelli, Fajardo, Resende e Nasser é um pequeno detalhe, que está revelado dois parágrafos adiante.

Com exceção de Nasser, todos hoje, reconhecidamente, estão entre os principais do cenário artístico brasileiro, apesar de uma certa porosidade de conceitos do que é considerado arte e não é em nossos dias. José Resende foi o primeiro a seguir pelo caminho da tridimensionalidade com obras de grande porte, que no início nos remetia à obra do americano Richard Serra. Fajardo também rompeu com a referência bidimensional, partindo para um trabalho mais conceitual. Já a busca de Baravelli foi mais sobre a bidimensionalidade, subvertendo o conceito tradicional da retangularidade, do modo renascentista de ver o mundo emoldurado por uma “janela”, sem deixar de explorar o tridimensional por meio de objetos, em sua maioria, de madeira e fórmica.

Frederico Nasser, que nos tempos em que estudou com Wesley Duke Lee, parecia o de maior radicalidade e buscava uma aproximação mais conceitual do que era arte, considerado por seus pares como o mais talentoso, acabou por abandonar a carreira. Foi ser editor e livreiro. Passou anos a fio, indo e vindo aos Estados Unidos para fazer um fac símile do caderno da garçonnière de Oswald de Andrade. Ficou sócio de Claudio Fernandes e fizeram a Livraria Horizonte. Desfeita a sociedade, tempos depois, montou a Livraria Universo. Baravelli que em suas investidas arquitetônicas sempre demonstrou o mesmo talento de artista plástico, montou seu ateliê no andar de cima e foi o autor do projeto da livraria. Era a mais bonita da cidade. Pena que poucos a conheceram pois não teve longa vida. Frederico tinha as suas idiossincrasias, não era muito paciente com quem não gostava. Perguntei uma vez por que não tinha uma placa ou um luminoso. Respondeu-me que se fosse para dar certo, que fosse sem ela. Era uma pena. O Wesley Duke Lee, que costumava passar por lá, tinha feito um lindo painel, que ficava pendurado em uma das paredes. A placa poderia ser uma reprodução dele. Como sempre gostei do objeto do livro – além de ler e ver –, e ele também, passava quando podia por lá. Numa das vezes, não lembre quando, acho que na mesma época acontecia uma exposição individual do Baravelli na Galeria São Paulo, comentou que tinha comprado um dos trabalhos. Acho que perguntei por que tinha desistido da carreira de artista. Não se interessava tanto mais de ser um produtor e sim um fruidor. Disse-me que não queria saber se uma obra de arte era importante ou não. O importante para ele era gostar ou não. Aquele trabalho que tinha comprado, tinha visto o Baravelli pintar.

Noutro dia, ao ouvir “Double Exposure”, gravação em duo com Stan Sulzmann de 1990, lembrei-me do que o Nasser disse e ficou na memória.

Ouça “Straight Man”.




Stan Sulzmann e John Taylor
O essencial no piano
Uma das gerações mais talentosas surgiu em fins dos anos 1960 e início do próximo. No país que revolucionou a música popular com os Beatles, Rolling Stones, Kinks e outros menos votados, as big bands de salão, tão tradicionais nos EUA, foram numerosas na ilha britânica. Essas formações foram importantes para o surgimento de ótimos instrumentistas depois da Segunda Guerra.

Em meados da década de 1960, a mesma que revelara as bandas citadas, foi pródiga em revelar músicos que iam por outras sendas. São dessa época e do início dos 70 John McLaughlin, John Surman, Stan Sulzmann, Elton Dean, Keith Tippett, Ian Carr, Harry Beckett, John Warren, Mike Osborne, Tony Oxley, Alan Skidmore, Barre Philips, dentre outros.

Dentre os tecladistas, os destaques são Karl Jenkins, Gordon Beck e John Taylor. Não se sobressaíram como Keith Jarrett e Herbie Hancock, por exemplo. Apesar do jazz de qualidade, os ingleses, fora McLaughlin e o baixista Dave Holland, nunca mereceram o respeito devido. Mesmo existindo grandes jazzistas no mundo inteiro, principalmente nos tempos atuais, tocar em solo americano faz diferença para que tornem-se mais conhecidos.

Nesse “segundo plano” a que foi relegado, é possível se mensurar a importância de John Taylor pelos álbuns em que participou, ou como líder ou como sideman. Gravou com Kenny Wheeler e Norma Winstone, em seus dias como membro do Azimuth, tocou com Charlie Haden, Jan Garbarek, Miroslav Vitous, Peter Erskine, Julian Argüelles e John Surman. Tem alguns piano solo, como “Insight” (2003), “In Two Minds” (2014), vários duos muito bons, como o com Charlie Haden (“Nightfall”, 2004) e Stéphane Kerecki (“Patience”, 2011). [sobre ele, leia: Stéphane Kerecki e John Taylor. Ou, um gosto leva ao outro]

Ouça “Bittersweet”, com Taylor e Haden.




Ouça “Gary”, com Kerecki.




Taylor participa de vários álbuns da ECM. Ouça “Running Sands”, com John Surman.




Com Peter Erskine e Palle Danielsson, em “The Lady in the Lake”.




Com Miroslav Vitous, “Windfall”, composição de Taylor. O sax soprano é de Surman.




Com Kenny Wheeler, ouça “Au contraire”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário