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| Jarrett e seu quarteto europeu. Jan Garbarek é o da esquerda |
Jarrett formou um quarteto na Europa e gravou um disco chamado Belonging (ECM 1974), com o saxofonista Jan Garbarek, o baixista Palle Danielsson e o baterista Jon Christensen. Antes do sucesso estrondoso do solo Köln Concert (leia em http://conteudodalata.blogspot.com.br/2010/09/dalva-herivelto-e-keith-jarrett.html), Quando começou a gravar pela alemã ECM já era bem conhecido. Participara das bandas de Charles Lloyd e de Miles Davis. Os discos lançados pela Columbia Records, Impulse e Atlantic, entre 1967 e 1976, sem exceções, são muito bons. O primeiro álbum de Jarrett pela ECM é um duo com o baterista e percussionista Jack DeJohnette, que, mais tarde, se tornaria membro efetivo de seu trio, junto com Gary Peacock. Ruta and Daitya (ECM, 1971), salvo engano, é seu último disco em que toca algum instrumento eletrônico. Antes de Wynton Marsalis ter se lançado como guardião do som acústico, o pianista já havia optado por isso. Não precisava ser eletrônico pois o som que tirava do piano era eletricidade pura.
Jan Garbarek não é Dewey Redman e Redman não é Jan. Apesar de o pianista ser o mesmo, os quartetos são bem diferentes entre si. Jarrett gravou Belonging em 1974 pela ECM Records. Lembro que os mais antenados logo “descobriram” o disco. Não era para qualquer antenado, pois discos importados eram bem caros e nem tudo vinha para cá. Às vezes, era preciso encomendar e esperar dois meses até chegar. Vida difícil; e revistas importadas vindas por via aérea eram caríssimas. A internet mudou tudo isso: democratizou a informação mas, surpreendentemente, não deixou as pessoas mais inteligentes.
Conheço ferrenhos inimigos do sax soprano, mas a juventude que gostava de jazz na década de 1970 era fã de Wayne Shorter no Weather Report; e Shorter era fã do Brasil: sua mulher era brasileira e adorava Milton Nascimento. E muitos tinham Shorter como referência para gostarem do som do sax soprano. Um tempo depois, fazendo caminho inverso, fui ouvir My Favorite Things, de John Coltrane. Por distorções naturais (fomos criados ouvindo Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin), a maioria dos da minha geração que passou a gostar de jazz começou ouvindo os sons eletrônicos de Chick Corea, Miles Davis e Herbie Hancock e depois descobriram Duke Ellington, Bill Evans e John Coltrane.
O gosto pelo som do soprano, naturalmente, me fez passar a prestar atenção em Jan Garbarek a partir de Belonging. Dois álbuns gravados nessa época, com Palle Danielsson, Jon Christensen e Bobo Stenson no lugar do americano – Dansere e Witchi-Tai-To –, são superiores aos de sua parceria com Jarrett.
O norueguês gravou dezenas de discos pela ECM. Explorou sons orientais e nórdicos, com Fateh Ali Khan, Anouar Brahem, Zakir Hussain, L. Shankar e com a cantora folclórica conterrânea Agnes Buen Garnås. Em discos mais vinculados à música erudita teve como parceiros a Hilliard Ensemble, Kim Kashkashian e David Darling. É um músico importante, goste-se ou não dele.
Mais de trinta anos depois do último lançamento do quarteto europeu de Jarrett, a ECM lança Sleeper, álbum duplo com uma apresentação em Tokyo’s Nakano Sun Plaza, de abril de 1979. Com a exceção de uma, a do bis, todas as faixas têm mais que dez minutos, sendo duas com mais de vinte. Na primeira vez, fiquei com a impressão de que “envelheceu”, quem sabe, por ter enjoado do sopro de Garbarek, um tanto estridente para o meu gosto (gostava, mas depois que conheci Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, meus parâmetros mudaram). Depois de ouvir cerca de cinco vezes, passei a gostar mais, mas não é um disco excepcional. Para aqueles que ainda gostam de Belonging, Sleeper é um prato cheio.
A faixa que abre o disco é Personal Mountains, com um drive excepcional da bateria de Christensen. Sendo um número bem longo, com 21:12 minutos, inicialmente enérgico, instrumentação vigorosa, a menos de sete minutos do fim, há uma mudança de andamento, tornando-se melancólica. Bem Jarrett: ele adora alternar climas em uma mesma música. É um dos destaques. Outra muito boa é Oasis. Inicia com uma percussão com som parecido ao da kalimba e logo depois, uma flauta executada por Keith. Meio africana, combina com o título. Então, entram a bateria, o piano e o sax soprano tenso de Garbarek. Prism, de andamento mais lento, é outra faixa que deve ser destacada.
Ouça “Personal Mountains”

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