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| Teju Cole, em Paraty, na Flip de 2012 |
A proximidade entre Mahler e Walter era tão grande que recebeu uma carta, em 1908, ano da conclusão de Das Lied von der Erde, que revela seu estado psicológico na época: “Se eu vou encontrar o meu caminho de volta para mim mesmo, eu tenho que aceitar os horrores da solidão. Eu falo em enigmas, pois você não sabe o que tem acontecido e está acontecendo dentro de mim. É, seguramente, nenhum medo hipocondríaco de morte, como você supõe. Tenho conhecimento, há muito tempo, de que eu tenho que morrer.”
Pouco antes de emigrar, foi constatado que Gustav sofria de um problema do coração. Morreu com apenas 50 anos. Das Lied representava esse “anúncio”. Compôs, entretanto, a Nona Sinfonia e deixou a Décima incompleta. Foram várias “mortes”.
A outra é com regência de outro mahleriano: Leonard Bernstein, com Christa Ludwig, Rene Kollo e a Filarmônica de Israel (existe em DVD, pela Deutsche Grammophon).
As outras duas não ficam para trás. A do “homem de ferro”, Otto Klemperer, é outro importantíssima. Klemperer, jovem, conheceu Mahler e parece até que recebeu dele uma recomendação escrita em um cartão, que ficou guardada para sempre como lembrança. Klemperer emigrou para os Estados Unidos antes da Segunda Guerra, após a ascenção do partido nazifascista de Hitler. Tanto Mahler como Walter, europeus, emigraram para os EUA, o primeiro em dezembro de 1907, convidado para ser regente do Metropolitan e logo depois, da Filarmônica de Nova York, e o segundo, em 1939, fixando residência em Beverly Hills, California, como muitos intelectuais e artistas alemães fugidos do nazismo.
O temperamento difícil de Klemperer revelou que sofria de transtorno bipolar. Em 1939, ficou constatado que tinha um tumor no cérebro, que fora retirado e lhe causou paralisia parcial como sequela. Por conta desses problemas, as portas se fecharam nos EUA. Voltou, depois da guerra, para a Europa e demorou a se firmar novamente. Sua sorte foi o apoio de Walter Legge, produtor da EMI. Assim, pôde deixar registrado seu talento em inúmeros discos pela EMI inglesa. Seu Das Lied von der Erde tem a mezzo soprano Christa Ludwig (a mesma da gravação de Bernstein), o tenor Fritz Wunderlich e a Philharmonia & New Philharmonia Orchestra.
Outra boa, mais recente, é a de Pierre Boulez (Deutsche Grammophon, 2001), com Violeta Urmana e Michael Schade, com a Filarmônica de Viena. O francês, como Mahler, notalizou-se como regente também. A diferença é a de que a obra de Boulez não tem a mesma importância. Agora, como regente é um gênio. Fenômeno midiático, sua obra composicional ficou menor do que as maledicências que proferiu contra Schoenberg, John Cage, Stravinsky, para citar algumas de suas “vítimas”.
Mahler por Teju Cole
Agora que acabo de ler Cidade Aberta (Comapnhia das Letras, 2011), noto a paixão dele pelo compositor. Na parte inicial (pág. 24), Julius fica surpreso ao ver o anúncio afixado na Tower Records, na rua 66, próxima ao Lincoln Center, de que está fechando as portas. Gastou centenas de dólares lá, como disse. Entra “atraído também pela promessa de que os preços tinham sido muito reduzidos em todos os produtos, apesar de não sentir especialmente motivado a comprar nada.” Vai ao setor de clássicos, no segundo andar. O sistema de som tocava Purcell. Logo depois, passa a tocar Das Lied von der Erde. É a versão com Christa Ludwig, regência de Otto Klemperer, de 1964, que citei acima. “Sentei em um dos bancos duros próximos das cabines onde se podiam ouvir os discos e mergulhei num devaneio, segui os passos de Mahler pela embriaguez, pela saudade, pelo tom bombástico, pela juventude (com seu declínio) e pela beleza (com seu declínio). Então veio o movimento final, Der Abschied, a Despedida, e no lugar onde Mahler em geral indicava o tempo da música, ele havia escrito schwer, difícil.”
No último capítulo, Julius fica sabendo pelo rádio que acontecerão três apresentações com as últimas obras de Mahler no Carnegie Hall, com regência de Simon Rattle. Muito em cima da hora, os ingressos da noite de Das Lied von der Erde estão esgotados. Consegue comprar para a da Nona Sinfonia, obra posterior à Das Lied.
A mente de Mahler vivia incessantemente nas últimas coisas: Das Lied von der Erde, com suas dolorosas notas de despedida e seu mundo sonoro e amargo; foi quase toda composta no verão de 1908. No ano anterior, 1907, uma política nefasta de natureza antissemita o obrigou a deixar o cargo de diretor da Ópera de Viena. Essa frustração veio logo depois de um grande choque ocorrido em julho de 1907, a morte da mais velha de suas duas filhas, Maria Anna, de cinco anos de idade, por causa da escarlatina. Quando o Metropolitan Opera o contratou para a temporada de 1908, Mahler trouxe a esposa Alma e a filha mais jovem para Nova York. Houve, então, um alívio, um momento de glória e alguma satisfação. Ele emocionou as plateias com sua regência e seus programas inovadores, até os diretores o afastarem em favor de Toscanini. (págs. 300-301)
Toda a escuridão que rodeava Mahler, os diversos sinais de fragilidade e mortalidade eram acesos com força por alguma fonte desconhecida, mas até aquela luz continha sombras. (pág. 301)
A obesessão com as últimas coisas não estava aparente apenas no seu estilo tardio. Já estava presente desde o início de sua carreira como compositor, desde a distante Segunda Sinfonia, que era uma ampliada exploração musical da morte e da ressurreição. Se nos últimos anos tivesse composto apenas Das Lied von der Erde, a obra seria encarada como as adequadas últimas palavras de um compositor, uma das maiores obras do gênero, comparável ao Réquiem de Mozart, à Nona Sinfonia de Beethoven e à última sonata para piano de Schubert. Mas compor depois de Das Lied, como fez Mahler, a igualmente imensa Nona Sinfonia no verão seguinte, em 1909, significou tornar-se, por força de sua vontade,o gênio das despedidas prolongadas. (pág. 302)
No último capítulo, Julius fica sabendo pelo rádio que acontecerão três apresentações com as últimas obras de Mahler no Carnegie Hall, com regência de Simon Rattle. Muito em cima da hora, os ingressos da noite de Das Lied von der Erde estão esgotados. Consegue comprar para a da Nona Sinfonia, obra posterior à Das Lied.
A mente de Mahler vivia incessantemente nas últimas coisas: Das Lied von der Erde, com suas dolorosas notas de despedida e seu mundo sonoro e amargo; foi quase toda composta no verão de 1908. No ano anterior, 1907, uma política nefasta de natureza antissemita o obrigou a deixar o cargo de diretor da Ópera de Viena. Essa frustração veio logo depois de um grande choque ocorrido em julho de 1907, a morte da mais velha de suas duas filhas, Maria Anna, de cinco anos de idade, por causa da escarlatina. Quando o Metropolitan Opera o contratou para a temporada de 1908, Mahler trouxe a esposa Alma e a filha mais jovem para Nova York. Houve, então, um alívio, um momento de glória e alguma satisfação. Ele emocionou as plateias com sua regência e seus programas inovadores, até os diretores o afastarem em favor de Toscanini. (págs. 300-301)
Toda a escuridão que rodeava Mahler, os diversos sinais de fragilidade e mortalidade eram acesos com força por alguma fonte desconhecida, mas até aquela luz continha sombras. (pág. 301)
A obesessão com as últimas coisas não estava aparente apenas no seu estilo tardio. Já estava presente desde o início de sua carreira como compositor, desde a distante Segunda Sinfonia, que era uma ampliada exploração musical da morte e da ressurreição. Se nos últimos anos tivesse composto apenas Das Lied von der Erde, a obra seria encarada como as adequadas últimas palavras de um compositor, uma das maiores obras do gênero, comparável ao Réquiem de Mozart, à Nona Sinfonia de Beethoven e à última sonata para piano de Schubert. Mas compor depois de Das Lied, como fez Mahler, a igualmente imensa Nona Sinfonia no verão seguinte, em 1909, significou tornar-se, por força de sua vontade,o gênio das despedidas prolongadas. (pág. 302)
Assista à apresentação do último movimento (Das Abschied). Vale a pena a paciência.
“Teju diz ter sofrido preconceito no Brasil”
Reproduzo aqui matéria de , publicada na Folha de S. Paulo (8/7/2012), assinada por Marco Aurélio Canônico.
"O Brasil, infelizmente, tem uma imagem de cartão-postal e, mais recentemente, uma imagem de um capitalismo bem-sucedido. É preciso visitar o Brasil para entender quão profundamente dividido ele é", disse o escritor, filho de pais nigerianos.
"A imagem exterior é a de que o Brasil é unido, resolveu seus problemas de raça, mas eu fiquei chocado. Estive no palco principal [da Flip], [havia] uma audiência de centenas, por que era tão branca?"
E seguiu: "Aqui nessa sala, sou provavelmente a pessoa mais negra. Brasil, você está partindo meu coração."
Cole, que havia visitado o Rio há dois anos, narrou dois episódios atuais em que teria sofrido preconceito.
O primeiro foi ao chegar no aeroporto internacional de São Paulo, "acompanhado de dois outros autores americanos convidados, brancos", que ele não quis identificar.
"Alguém do aeroporto me apontou um caminho; meus amigos me seguiram, mas ele disse que só eu precisava ir. Minhas malas passaram por uma vistoria extra. Bem-vindo ao Brasil", contou.
"É claro que essa seleção não foi feita porque alguém olhou meu passaporte."
O outro incidente aconteceu durante a Flip, quando o escritor entrou em um local no centro histórico de Paraty "onde as pessoas estavam indo e vindo livremente".
"Fui perseguido pelo segurança, até que apareceu alguém dizendo 'ele é um dos nossos palestrantes'. Essa é a realidade presente aqui."
Apesar das críticas, ele fez questão de elogiar os brasileiros em geral. "Viajei muito no último ano para divulgar meu trabalho e em poucos lugares as pessoas foram tão afetuosas e interessadas pelo meu livro quanto aqui."
Cole iniciou sua apresentação lendo em português os dois primeiros versos do clássico "No Meio do Caminho", de Drummond, e concluiu o poema em inglês, na versão traduzida por Elizabeth Bishop ("Uma das minhas poetas preferidas", disse).
"Para mim, esse é um poema sobre a epifania, um momento que pode ser transformado em algo para a vida inteira. É isso que se faz quando se escreve um romance, partir de algo simples que pode se tornar memorável."

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