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| Terje Rypdal, hoje |
Em alguma hora Stan Getz, Don Cherry e Bebo Valdés estavam morando na Escandinávia. Parecia incomum. Mulheres podem ser um bom motivo, não? Getz casou-se com uma sueca. Don Cherry também amarrou o burro em Estocolmo, casando-se com Mona Karlsson. Sua enteada Neneh adotou seu nome e não o do pai Ahmadu Jah como nome artístico. Bebo era um pianista consagrado e preferiu sair de Cuba após a queda de Fulgencio Batista. Passou pelos EUA, Alemanha e fixou-se também em Estocolmo.
Ao norte da Dinamarca e a oeste da Suécia, fica a Noruega, país de nascimento de Terje Rypdal, Jan Garbarek e Arild Andersen. A ECM é responsável por apresentar esses fabulosos músicos ao mundo. Abriram caminho para uma nova geração composta por Nils Peter Molvær, Tord Gustavsen, Mathias Eick e Bugge Wesseltoft. Dos três, Garbarek é o mais conhecido por ter feito parte do quarteto europeu de Keith Jarrett. Terje já havia tocado com Jan e Arild. O guitarrista e o baixista lançam seus discos até hoje, pela ECM.
O primeiro álbum de Terje Rypdal que ouvi foi Whenever I Seem to Be Far Away (ECM, 1974). Passara a conhecer os discos da ECM graças ao Robert, colega de FAU, duas turmas acima. Sua mãe morava no Japão, empregada da extinta Varig, e ele a visitava uma vez por ano. Era quando trazia dezenas de novidades impensáveis e impossíveis a nós brasileiros. Sua generosidade em emprestar-me todos eles para que eu pudesse gravar, apesar dos ciúmes por seus “filhotes”, sabendo que cuidava muito bem deles. Foi assim que conheci os melhores discos dessa gravadora antes que alguns fossem lançados aqui.
O álbum de Rypdal fugia de qualquer possível classificação. Não era jazz, não era rock, não era música erudita. Era uma mistura dos três gêneros. Tinha a energia do rock e a música título – Whenever I Seem to Be Far Away – era uma peça longa que ocupava o lado B inteiro do LP, que poderia ser melhor classificada como um concerto para guitarra e orquestra. A atmosfera, às vezes, aterradora e tensa, na minha fantasia, relacionava-se com alguma paisagem norueguesa.
Esse LP nunca foi lançado no Brasil, mas o dele com o baixista Miroslav Vitous e o baterista Jack DeJohnette, sim. Para a maioria dos ouvintes, esse álbum servia de um belo cartão de apresentação da arte de Rypdal, por conter peças mais breves. Até hoje, ouço com prazer. Está entre as melhores coisas dele.
Ouça If Mountains Could Sing, deste álbum.
Ouça outra faixa: Sunrise.
Mais uma: Seasons. Grande música. A guitarra de Rypdal é fenomenal.
Rypdal descoberto. Há pouco tempo “descobri” um disco de Terje Rypdal. Bleak House é de 1968. Seu primeiro no selo em que grava até hoje é de 1971. Mais de 30 anos depois, surpreendentemente, soa moderno. A primeira surpresa surge já na primeira faixa. O início de Dead Man’s Tale nos transporta a uma outra época, a de quando fora gravada. Com guitarra e órgão, apresenta-nos algo raro: vocais, e dele. Não faz feio. Wes, é a próxima. Aqui, é a linguagem do jazz. Inspirado em um dos grandes guitarristas – Wes Montgomery –, é uma peça mais longa e elaborada. A formação guitarra-baixo-bateria se faz acompanhar por uma seção de sopros, que acompanham a evolução do tema capitaneado por Rypdal. É um destaque.
Ouça a jazzística Wes.
Os antigos LPs comportavam 45 minutos de música, no máximo, os CDs, até 75 minutos, uma diferença relevante. Até hoje acho 45 a 50 minutos a duração para um álbum. É um tempo “confortável” para se ouvir um mesmo autor. Bleak House é desse tempo ainda e tem menos de 40. Sendo seu segundo como líder, surpreende pela qualidade dos arranjos.
Como prova, ouça a música título, Bleak House. Para a gravação desse LP, contou com dois trombones, dois trumpetes, tuba, saxofones e cornes. Confira.
Ouça o LP inteiro aqui. A primeira e a última conta com vocais de Rypdal.

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