terça-feira, 6 de março de 2012

Sinéad O’Connor. Viva e operante

Protesto de O’Connor contra a Igreja Católica
A vida de Sinéad O’Connor dá o que falar. É assim desde 1988, quando lançou The Lion and the Cobra. Na capa, a foto de uma moça de feições bem desenhadas e, careca. Surpreendeu a voz doce, muito de acordo com a expressão estampada: angelical. Em fundo infinito branco que se fundia ao contorno de seu corpo, seus ohos miram o indefinido, virados para baixo, e suas mãos, com os braços em X, seguram as alças do vestido azul. Se não me engano, a música que estourou nas rádios foi Mandinka. A batida forte se mesclava à voz doce e, ao mesmo tempo, raivosa. Just Like U Said It Would B, Jerusalem e Troy (essa, excepcional) eram canções belas e doloridas.

No CD seguinte – I Do Not Want What I Haven’t Got – Sinéad gravou Nothing Compares 2 U, de Prince. Esse é um clássico definitivo. (sobre essa música, leia http://bit.ly/wL6PhB).

A carreira musical de O’Connor não parou por aqui. Gravou dezenas de discos, fez um cover de Don’t Cry for Me Argentina. Mas parece que isso ficou menor frente ao que era publicado na imprensa e mostrada nas televisões. Os escândalos ficaram maiores do que a sua música. Revelou os maltratos infligidos na infância e na adolescência pela mãe. Eram brutalmente espancados e viviam sujos, revelou à revista Spin, em 1991. Nesse seu desvelamento a um público ávido por escândalos, foi revelado que estava se ordenando sacerdote em um grupo católico (1999), disse que era lésbica (2000), tentou o suicídio, e internou-se em uma clínica psiquiátrica. O escândalo maior foi quando, em protesto contra o abuso sexual de crianças pela Igreja Católica, rasgou a foto do Papa no programa Saturday Night Live, em 1992.

Em matéria no New York Times (publicada em OESP, 18/2/2012), Ravi Somayia diz que “John Mayer, Courtney Love, entre outros, transmitiram ao vivo seus escândalos pessoais.” Diz também que o “colapso de Charlie Sheen, narrado minuto a minuto no Twitter, com frases incisivas, ficaria bem menos convincente por fax.” Escândalos parecem fazer parte do meio artístico desde sempre. É o preço da exposição ou, quem sabe, é um componente de exibicionismo do artista. É trágico e curioso esse prazer de Charlie Sheen em se expor tanto ao se vangloriar de que, apesar do consumo pesado de drogas, não se vicia. É a sensação de ser um super-homem. Sinéad, ao contrário, gosta de se mostrar desprotegida. E a culpa, como diz ela, até hoje, é da mãe carrasca. Na matéria de Somayia, ela imputa ao fato de ser mulher a exposição excessiva de seus atos: “Ela acredita que o julgamento que os outros fazem de seu comportamento tem a ver com o fato de ser mulher. ‘Se eu fosse um homem, ninguém acharia que precisaria pedir desculpas por alguma coisa. Ninguém pergunta a Mick Jagger se ele se aquietou.’” Resumo da ópera: ela é sempre a vítima.
A O’Connor cheinha

Depois de andar bem sumida, foi notícia novamente quando se apresentou no Manchester International Festival bem gordinha e com um penteado “pra lá de feinho”, no meio do ano passado. Sinéad estava de volta? Mais uma vez, foi comentada na mídia porque estava se casando mais uma vez. Postou em seu site que estava à procura de um homem. Barry Herridge, um conselheiro de dependentes de drogas, foi o felizardo (???). O casamento durou 18 dias. Segundo Sinéad a ruptura aconteceu por culpa da “danada” (a danada da maconha). “Três horas após o fim da cerimônia o casamento foi atrapalhado pelo comportamento de certas pessoas na vida do meu marido. E também para um dia mais selvagem eu fiz com que a gente procurasse um pouco de maconha para eu fumar no dia do casamento, já que não bebo.” São palavras de Sinéad, publicadas em jornais e na internet. Elogia, ainda, o novo marido (que tinha acabado de deixar de sê-lo): “Ele é um homem maraviloso. Eu o amo muito. Desculpe por não ser uma mulher mais normal. […] Ele tem estado terrivelmente infeliz e, portanto, acabei com o casamento.”

O inusitado se repete dias depois: reata o casamento. E tudo isso foi sendo noticiado e, mais estranho, graças às tuitadas da própria cantora. Para quem não quer se expor, é um tanto estranho, não? Ah, esses artistas! Não querem que se fale deles e eles próprios adoram expor suas vidas em redes sociais.

Quando a vida pessoal parece muito maior que seu trabalho na música, Sinéad O’Connor, mais uma vez surpreende. Discretamente, ao contrário do que faz com sua vida, lança um novo álbum. Mais surpreendente ainda: é bom. Sinéad andou dizendo que se aposentaria da música para cuidar do espírito e de seus filhos. A moça, pelo jeito, gosta de mudar de opinião, pelo jeito, ou gosta de ser notícia, para o bem e para o mal.

São outros tempos. Essa jovem de 45 anos que, outrora, foi bem mais moça, e “entrou de sola” no mercado fonográfico, linda, de olhar delicado, magérrima e careca (antes até da onda masculina de passar máquina zero) e canções vigorosas, ainda tem o que mostrar, e não são apenas braços adiposos e cara de dona de casa (sem querer desmerecer as “senhoras do lar”). Poderia muito bem estar cuidando de suas quatro crias, mas decidiu gravar mais um disco. Quem tem verve, não a perde. Em How About I Be Me (And You Be You)?, lançado agora, quando pouco entramos em 2012, vemos que Sinéad é capaz ainda de produzir canções belíssimas como Reason With Me, Old Lady e Back Where You Belong. E sua voz continua a mesma, emocionantemente bela. Podemos esperar que, adentrada na faixa dos “enta”, a irlandesa sossegue o facho? Bom, não sei se seria uma boa aposta.


Ouça Reason With Me com O’Connor ao violão. Não é linda?



A do CD.




Old Lady.


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