Interessando-se me jazz, muda-se, em 1957, para Los Angeles e trava contato com o pianista Hampton Hawes. Foi seu início profissional no gênero. Tocou com Paul Bley e Art Pepper, mas tornou-se conhecido mesmo quando passou a tocar com Ornette Coleman. Junto com o texano nascido em Fort Worth, participou da revolução do free jazz.
Em 1967, passou a fazer parte do quarteto de Keith Jarrett. É dessa época o meu primeiro contato com o baixista. Era um quarteto excepcional em que os outros membros eram Dewey Redman e Paul Motian. O primeiro álbum solo dele foi Closeness (Horizon, 1976). Lembro-me até hoje do quanto ouvi esse disco de duos com Keith Jarrett, Ornette Coleman, Alice Coltrane e Paul Motian. Nesse mesmo ano, lançara também As Long As There’s Music, com o fabuloso pianista Hampton Hawes, o músico que procurara ao chegar em Los Angeles.
Ouça Irene, duo de Haden com Hampton Hawes.
Ouça a belíssima Ellen David, composição para a sua mulher à época, em duo com Keith Jarrett.
Ao mesmo tempo em que participava do quarteto de Jarrett, montou o Liberation Orchestra Music, com Carla Bley. Com essa formação, Haden revelava a sua faceta militante. É discutível usar a música como um meio político. Há um certo equívoco em se imaginar que é possível fazer uma revolução assim, a não ser que essa revolução aconteça no âmbito estritamente formal. Mas, antes de comunista militante, Haden era um tremendo músico. Em nome de seu ideal compôs belas canções como Chairman Mao, Sandino, Song for Che, La Pasionaria e For a Free Portugal. Aliás, por sua postura militante contra as tiranias e o colonialismo, foi expulso de Portugal na era salazarista, quando foi se apresentar no Festival de Jazz de Estoril. Teve a capacidade também de, junto com Carla Bley, de fazer arranjos sensacionais a partir de temas relacionados à Guerra Civil Espanhola (Els Segador), a El Salvador (The Ballad of the Fallen), ao Chile (The People United Will Never Be Defeated), a Portugal (Grandola Vila Morena) e com a música de Hans Eisler (Song of the United Front).
Haden tinha, à essa altura, um rol de admiradores e era reconhecido pela crítica como grande instrumentista. Foi por muitos anos o melhor contrabaixista na votação da revista Downbeat, e The Ballad of the Fallen (ECM) foi considerado o melhor disco do ano pelos críticos da Downbeat, em 1984.
Ouça La Pasionaria, de The Ballad of the Fallen.
Ouça Silence, uma das mais belas composições de Haden.
Outra formação importante dele é a série de álbuns gravados com o Quartet West. Nesses discos, deixa a militância política de lado e foca no ambiente noir. São interpretações que evocam os anos 1930/40/50. Os temas são melódicos fincados na grande tradição musical americana. Insere, inclusive, vozes de Jo Stafford, Jeri Southern, Billie Holiday, solos de Coleman Hawkins, Django Reinhardt, Duke Ellington, Stéphane Grappelli, em muitas delas, com arranjos luxuriantes para orquestra de Alan Broadbent, o pianista da banda.
Veja uma apresentação do Quartet West, em São Paulo, no Heineken Jazz Festival, tocando Retrato em Branco e Preto.
Veja o Quarteto em First Song (for Ruth), composta para a sua mulher, desta feita, a segunda. Haden tocava protegido por uma redoma de acrílico devido ao seu problema auditivo.
São importantes também, em sua discografia, a formação que ficou chamada de Old and New Dreams, com Don Cherry, Dewey Redman e Ed Blackwell. São discos vigorosos, de alta octanagem. O melhor deles é Playing (ECM, 1981).
O Old and New Dreams interpreta um dos clássicos de Ornette Coleman: Lonely Woman.
Com uma produção dessas, Charlie Haden fica na história não apenas como um dos grandes baixistas da história, junto com Charles Mingus, Ray Brown e Scott LaFaro, mas como um dos propulsores da música instrumental, partícipe de várias reviravoltas importantes. Haden faz parte daquela classe especial em que seus admiradores o amavam incondicionalmente. Desde já, deixa saudades.

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