terça-feira, 23 de outubro de 2012

O craque Joe Mooney

Mooney em foto de William P. Gottlieb
A fila de músicos sobre os quais gostaria de falar é enorme; é maior que a dos que foram assunto neste blogue. Chegou afinal a vez de Joe Mooney, que estava lá esperando a sua vez. Não é sujeito muito conhecido, mas vale, e muito, conhecê-lo, digo para os que não sabem quem é ele ou nunca o ouviu. É do time de George Shearing, de Ray Charles e Art Tatum. Têm em comum o fato de todos serem (foram) tecladistas. Tem outra coisa mas, deixa pra lá. Se você quiser saber, leia em http://bit.ly/WFWP0h.

Diferentemente dos três citados, Mooney acabou optando pelo órgão e pelo acordeom. Foi relativamente popular nos anos 1940, pelo menos é o que se diz em sua biografia. Órgão é um instrumento bem específico. Os nomes mais conhecidos são os da turma da Blue Note – John Patton, Jimmy Smith, Larry Young e Jack McDuff (este gravou mais pela Prestige). O estilo de Mooney é diferente porque tocava e cantava ao mesmo tempo. A importância, nesse caso, está na simbiose entre voz e instrumento saindo dos mesmos nervos cerebrais. No caso dos que tocam, exclusivamente, os estímulos se direcionam para as mãos e para os pés, que fazem soar as notas mais graves; é por isso que muitos organistas prescindem de um contrabaixista.

Há uma qualidade muito específica na instrumentação de Mooney, algo que acontece com muitos pianistas/cantores como Bobby Short, Dave Frishberg e Bob Dorough.

O motivo maior de lembrar de escrever algo sobre Joe Mooney se deve ao fato de ter “descoberto” o livro O Caçador das Bolachas Perdidas, de Jorge Cravo, o Cravinho, como é conhecido. Por falta de espaço ou por desorganização, livros relacionados à música e ao cinema estão em uma estante dentro do meu banheiro social, que fica bem frente ao vaso sanitário. Pois estava à procura de um determinado livro e me deparei com o de Cravinho, lançado pela editora Record, em 2002. O Carlos Conde e o Alberico Cilento viviam falando dele e do livro. Comprei não sei há quanto tempo. O certo é que esqueci, mas o que está por aí sempre estará à mão. Bom, iniciei a leitura e, em uma sentada (não foi na privada, é bom esclarecer), li metade dele. Agora, na parte final, quando fala dos seus intérpretes favoritos, há uma parte que é sobre Joe Mooney.

O baiano Cravinho, nascido na pequena Alagoinhas, junto com o irmão Mario Cravo Jr., foi fazer faculdade nos Estados Unidos, facilitado pela boa condição financeira familiar, exportador de café e tabaco. Bom, o Mario Cravo Jr., todo mundo deve conhecer; seu filho Mario Cravo Neto também. Tendo ido morar, primeiro em Syracuse e depois em Nova York, Cravinho assistiu ao vivo uma verdadeira constelação de astros do jazz: Nat “King” Cole, Billie Holiday, Stan Kenton, Anita O’Day, June Christy… bom, é melhor pegar o livro porque a relação é extensa. As edições devem estar esgotadas, mas vale a pena ir atrás de um sebo internético e adquiri-lo. É engraçado, instrutivo e delicioso, mormente aos que se interessam pelo jazz e pelos de bom gosto. Do jeito que é bom e é uma referência, com certeza, voltarei ao Cravinho em outras oportunidades.

Voltando ao Joe, vou dar uma de folgado e transcrever a parte que se refere ao grande cantor/organista/acordeonista. Para contextualizar, a partir de um intertítulo – “Um time invencível” –, Cravinho “monta” um time ideal, posição a posição. Vamos lá:

O meio de campo de minha seleção de pianistas cantores é de uma versatilidade incrível. São tão entrosados que, sem temer qualquer adversário, incluíram um cego! A fera se chama Joe Mooney e é um cego com tanta habilidade e percepção sensorial que desnorteia qualquer esquema inimigo. Joe Mooney atrai para si muita atenção porque canta e toca piano, órgão e acordeom. Ouvi pela primeira vez sua voz e bossa em 1949, no rádio do carro, viajando pelos Estados Unidos. Estava cansado, por vir dirigindo horas seguidas, e eis-me de noitinha ao volante, entre palmeiras enormes, numa avenida de Los Angeles. De repente, ouvi no rádio um cantor e um conjunto pra lá de moderno. O choque foi tanto que quase perdi o controle do carro. “Mas, que é isso?”, eu disse para mim mesmo, só que em voz alta. Meu irmão Mario, que ressonava a meu lado, no assento do carona, acordou sobressaltado e foi logo me advertindo: “Presta atenção no volante, você quase saiu da pista! É a sua falta de atenção quando está ouvindo música!” Aguentei o pito e, finalmente, o locutor deu a dica: “Ouvimos Joe Mooney e seu quarteto.”
Jamais esqueci Joe Mooney e, nos anos 50, fui reencontrá-lo como crooner da Orquestra Sauter-Finegan, cantando o antológico “Nina Never Knew”. Depois, lavei a jega com seus LPs You Go to My Head (Decca), Lush Life (na Atlantic, onde ele novamente castiga Nina Never Knew”), The Greatness of Joe Mooney e The Happiness of Joe Mooney (os dois últimos da Columbia). Todas essas joias já estão em CD e precisam ser ouvidas – são cada vez mais raros os cantores “originais”, e Joe Mooney foi um dos maiores.



Agora, só resta ouvir Nina Never Knew.


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E outra, bem conhecida: Crazy He Calls Me.


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