Conta Ruy Castro, em “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1991), que, segundo a lenda, Vinícius de Moraes foi à boate Arpège para prestigiar Tom Jobim, que defendia uns trocados, tocando piano, e lá viu Baden Powell executando “My Funny Valemtine” e “Estúpido Cúpido” na guitarra elétrica. Depois do show, o poetinha o procurou e propôs uma parceria musical.
Lenda mesmo. Tom Jobim, em 1962, já era suficientemente famoso e não precisava tocar em boates para se sustentar. E Baden, não era tão desconhecido. A real é a que Vinícius conheceu Baden por meio de Nilo Queiroz, aluno de violão deste último. Depois de ouvi-lo uma noite inteira na casa do amigo, surgia um novo parceiro. Baden foi parar no apartamento do ex-diplomata e lá ficou por quase noventa dias, compondo e bebendo. Resultou em 25 canções, muitas delas, hoje, clássicos.
De parte delas, resultou o genial álbum “Afro-Sambas”. A parceria foi regada a whisky Haig, que Vinícius tinha trazido na mala diplomática. A partir de um disco de folclore baiano, dado pelo amigo Carlos Coqueijo, e Baden sem nunca ter ido à Bahia, compuseram clássicos como os Cantos de Ossanha, de Xangô e de Iemenjá.
Depois dos quase noventa dias de isolamento, internaram-se na Clínica São Vicente para se desintoxicarem.
No programa “Ensaio”, dirigido por Fernando Faro, Baden conta que ele e Vinícius passavam noites em claro, enchendo a cara e compondo. Uma delas deixou o poeta injuriado. Disse que não ia colocar letra em um tema plagiado. O violonista alegou que não. “Isso é do Chopin”, dizia, depois de hectolitros de Haig na cabeça. Madrugada, quase amanhecendo, resolveu acordar a mulher, que conhecia bem sua obra do polonês.
A mulher confirmou que não era. Vinícius resolveu então colocar a letra. Assim nasceu o clássico “Samba em Prelúdio”.
A melhor interpretação, na minha opinião, é a de Odete Lara, no álbum “Vinícius & Odete” (Elenco, 1963).

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