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| O quase brasileiro Stefano Bollani e Irene Grandi |
A primeira faixa soa um tanto estranha. Vozes que parecem saídas de um filme de terror, um piano acústico e elétricos executam notas e acordes em ostinatos. Daí, quando Irene começa a cantar, é uma música tipicamente italiana. Chama-se Viva la papa col pomodoro. Eu, que não entendo bulhufas da língua, não consigo definir se é sobre comida. A certa altura, algumas palavras me fazem desconfiar de algum teor político. Minha alusão a filmes de terror não é infundada. Descubro que foi composta por Nino Rota em parceria com a diretora Lina Wertmüller para uma série televisiva chamada “Il giornalino di Gian Burrasca”. Uma parte da letra – “a barriga que ronca é causa do complô, é causa da luta, ‘abaixo o diretor’, a sopa nos foi cortada, agora exigimos a papa de tomate!” [fonte: http://ritapavonelps.blogspot.com.br/2011/03/7-ritorna.html] – confirma minha desconfiança de alguma conotação política. Afinal, tinha a participação de Wertmüller! Pesquisando mais, fico sabendo que foi sucesso na voz de Rita Pavone. Que tem menos de 40, pouco desconfia de quem possa ter sido Rita Pavone.
A segunda faixa nos traz a sons um pouco mais familiares. Occhi negli occhi. Conheço essa música. Stefano Bollani, com sua habitual competência toca notas ao piano de grande beleza e Irene, em uma mistura de italiano e português, canta Olhos nos Olhos, de Chico Buarque.
Surpresas e surpresas. Sussurrados os primeiros versos de Dream a Little Dream, Grandi é acompanhada por Bollani no Fender Rhodes. O pianista, com pouco mais de 40 anos, deve ter gravado como líder ou acompanhante mais de uma centena de álbuns, o que é demonstração de sua hiperatividade. É reconhecido como um dos melhores pianistas italianos com Stefano Battaglia e Enrico Pieranunzi. Outra marca sua é a versatilidade em explorar vários gêneros. Gravou Gershwin com o maestro Riccardo Chailly, jazz com Enrico Rava, Roberto Gatto, Francesco Cafiso e Phil Woods, acompanha cantoras como Katrine Madsen, Tiziana Ghiglioni e Barbara Casini. A ligação com a música brasileira está presente em muitos momentos, não apenas abordando o repertório mais habitual, como Antônio Carlos Jobim, mas executando e cantando Adoniram Barbosa, Zé Keti, Moacir Santos, Ernesto Nazareth, Ismael Silva e Nelson Cavaquinho.
A quarta faixa, posterior a Dream a Little Dream of Me, Construire, de Niccolò Fabi é um dos destaques desse álbum. Ouça. A voz de Irene Grandi lembra um pouco a de Marianne Faithfull, com menos cigarros, álcool e outras drogas mais.
Ouça a original Dream a Little Dream of Me.
Veja Bollani e Irene cantando a emocionante Construire.
Nessa toada, canta temas pouco conhecidos por quem não ouve música italiana habitualmente: Come non mi hai visto mai, A me me piace ’o blues, de Pino Daniele, e L’arpa della tua anima. As restantes, são mais conhecidas, pelo menos, por nós: For Once in My Life, Roda Viva, de Chico Buarque, La Gente e me [Samba, Suor e Cerveja], de Caetano Veloso, e a belíssima, e pouco gravada, Medo de Amar, de Jobim e Vinícius de Moraes, conhecida também como Vira Essa Folha do Livro. A menos conhecida, pelo menos pelo público que não ouve rock é No Surprises, do Radiohead. Aliás, é outro dos destaques. Ouça.
Ouça também Medo de Amar. O número de músicas brasileiras deve-se, certamente, a Bollani, um apaixonado por ela.
Veja também o duo do pianista (ocasionalmente, canta) e a cantora em Roda Viva.

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