quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Hampton Hawes, antes e depois da cadeia

Hawes na capa de “The Sermon”
O amigo Zeca Leal gostava de dizer que nos anos 1950/60 a melhor banda americana de jazz era a do presídio de San Quentin. Era um tremendo piadista e foi quem mais comprou discos de Frank Sinatra no Brasil (sobre isso, leia o Caso 1 do post “Frank faz 100 anos”).

Hampton Hawes nasceu em Los Angeles, em 1928, para manter um pouco a escrita dos músicos, filho de pastor presbiteriano e mãe pianista da Igreja. Autodidata, sem formação acadêmica, foi um pianista dos grandes. Com 19 anos, estava tocando com Howard McGhee. Serviu o exército, no Japão, de 1952 a 1954. Logo depois, formou um trio com Red Mitchell e Chuck Thompson. Com eles gravou três álbuns intitulados “The Trio” pelo selo Contemporary. No ano seguinte, com o acréscimo do guitarrista Jim Hall e Bruz Freeman no lugar de Thompson, lançou “All Night Sessions” em três volumes separados. Tornou-se a sensação da Costa Oeste. Foi o “New Star of the Year” pela Downbeat e o “Arrival of the Year” pela Metronome. O futuro que se apresentava róseo, pretejou com a prisão por porte de heroína. A pena foi dura: dez anos de cadeia.

A promessa foi encarcerada, como tantos músicos que tiveram o mesmo destino. Pouco antes, gravou “Mingus Three”, com o baixista Charles Mingus, e “The Sermon”, com spirituals. Saiu graças a um indulto pedido e aceito pelo presidente Kennedy, em 1963. Retomou a carreira. Em 1967, fez uma longa excursão pela Europa e viu que tinha fãs ardorosos pelo mundo. Seu estilo, segundo os críticos, influenciou Oscar Peterson, Horace Silver, Claude Williamson e Toshiko Akiyoshi. Não é pouco.

Movimento inverso

Como não sou da geração do Zeca, o primeiro disco que ouvi do pianista foi “As Long As There’s Music” (1976), duo com o Charlie Haden. Tinha conhecido alguns álbuns de Keith Jarrett e, por tabela, fiquei fã de Dewey Redman, Paul Motian e Haden, e foi por meio dele, conheci Hawes.

Ouça “Irene”, a primeira faixa.



Ouça “Turnaround”, de Ornete Coleman, ídolo de Haden.



O segundo álbum que conheci de Hawes foi “Live at The Montmartre”, de apresentação no famoso clube de Copenhagen, em 1971, adquirido ainda na época em que não existiam os CDs. Mais uma vez, a admiração era pelas linhas sinuosas e enérgicas ao piano. O início do disco, com o trio composto por Henry Franklin no baixo e Michael Carvin na bateria, é o perfeito exemplo em “The Camel”, de autoria do último. Como é uma gravação ao vivo, os dois últimos registros estão um tanto abafados e devem ter sido feitos em noites diferentes. A última, por sinal – “Dexter’s Deck” –, conta com Dexter Gordon no sax tenor.

Ouça o álbum na íntegra.



O Zeca, sendo de outra geração, trinta anos mais velho que eu, sendo da era dos LPs, não tinha muitos CDs. LPs pioram a cada audição por conta do atrito de uma agulha com o vinil. Agora, imagine o estado dos LPs do Zeca comprados ainda nos anos 1950 e início dos 1960. Deviam estar um chiado só.

Ele passou a vir com frequência à minha casa para gravar os seus álbuns preferidos em fitas cassete, outro formato que caiu em desuso, mas comum em carros, mesmo depois do advento dos CDs.

Nessas visitas, conheci muitos músicos antigos, com direito a muitas histórias. Tinha também cadernos com letras de tudo quanto é standard do cancioneiro americano. Ele emprestava, eu copiava em xerox. Minha coleção foi sendo formada em sentido inverso de tempo. Comecei comprando Chick Corea, Herbie Hancock, Keith Jarrett e os mais recentes de Miles Davis. À medida que ia me aprofundando na linguagem do jazz, fui atrás de álbuns antigos de Miles, Thelonious Monk, Duke Ellington, Count Basie, Art Tatum e Billie Holiday, dentre outros, para depois conhecer aqueles um pouco menos conhecidos como Phineas Newborn Jr. (era um dos que o Zeca admirava) e Hampton Hawes. Aprendi a admirar alguns que não faziam do meu panteão do piano, como Oscar Peterson, Dick Farney e Dave Brubeck. Gostava e conhecia bem o popular “Time out”, mas não outras coisas mostradas pelo Zeca.

Em uma dessas vezes em que esteve na minha casa, perguntou-me se tinha algo de Hampton Hawes. Feliz, mostrei os dois CDs comentados acima. Esses, nunca tinha ouvido. Coloquei o ao vivo em Montmartre. Não pareceu muito animado ao ouví-lo. Nem interessou-se em gravar. Contou-me que ele tinha passado uma boa temporada na cadeia e que as melhores coisas dele eram dessa época. Como bom colecionador, fui atrás. Aprendi muito com o Zeca. Foi um dos meus mestres.

Ouça “The Blues Most”, do primeiro “The Trio”.




Ouça também o que faz na balada “So in Love”, de Cole Porter.




Ouça a tradicional “Nobody Knows the Troubles I’ve Seen”, de “The Sermon”.




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