quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A face soul de Dee Dee Bridgewater

“Sim, sou uma cantora de jazz”, afirma Dee Dee Bridgewater nas notas internas de “Memphis… Yes, I’m Ready”, que acaba de ser lançado. Era o que sonhava ser: uma jazz singer.

Também! Era previsível. Seu pai, Matthew Garrett, foi trompetista profissional e professor na Manassas High School de 1949 a 1952. Foram alunos seus, simplesmente, Charles Lloyd, George Coleman, Frank Strozier, Brooker Little, Phineas Newborn Jr. e Harold Mabern, sem dúvida, uma turma de respeito.

“Sim, eu nasci em Memphis, Tennessee”, assim começa nas notas internas. Quando tinha três anos, a família mudou-se para Flint, Michigan. Adolescente, ouvia nas noites a WDIA Radio. Nas suas palavras, era seu “jardim secreto”. Era a única rádio que tinha a programação inteiramente voltada para a música afro-americana. Assim, tomou gosto por vários gêneros, no entanto, tornou-se uma jazz singer porque “isso é algo que sempre sonhei ser”.

Não fosse esse seu propósito, poderia muito bem tem virado uma intérprete “pop”, como Aretha Franklin, que, aliás, no início de sua carreira voltou-se para os standards de jazz. Tivesse seguido por esse caminho, Dee Dee teria feito até mais sucesso, pois talento e aquele timbre que só os negros têm nunca lhe faltaram.

Denise Eileen Garrett, enquanto cursava a Michigan State University, cantava em clubes de jazz, pois sua meta era ser cantora. Conheceu o trompetista Cecil Bridgewater, com quem se casou. Mudaram-se para Nova York. Cecil tocava na banda de Horace Silver. Dee Dee, a partir de então, Bridgewater, foi ser crooner da Thad Jones-Mel Lewis Orchestra. O início auspicioso fez com que conhecesse Sonny Rollins, Dexter Gordon, Max Roach e Dizzy Gillespie, dentre outros.

Dona de uma voz poderosa, a bela negra participou do musical “The Wiz”, ganhou o Tony Awards como “best featured actress”, em 1975, e um Grammy no ano seguinte. Como performer de musicais foi para a França, fazendo parte do musical “Sophisticated Ladies”, e por lá ficou. Casou-se com o produtor Jean-Marie Durand, em 1911. Antes, estava casada com Gilbert Moses, com quem teve China Moses, que optou pela mesma profissão da mãe. No início dos anos 1980, retomou a carreira de jazz singer.

Um talento tão indiscutível só poderia encontrar morada em grandes gravadoras como a Verve e ser convidada para cantar nos maiores e mais prestigiados festivais e clubes de jazz. É considerada uma das melhores cantoras vivas, junto com as experientes Dianne Reeves e Cassandra Wilson. É certo que há a emergência de uma nova geração de peso em que despontam Roberta Gambarini, a sensação Cécile McLorin Salvant, Cyrille Aimée, Lizz Wright, sem esquecer das fabulosas Dianna Krall, Stacey Kent, Karryn Allison, Tierney Sutton e Catherine Russell, que preenchem o meio campo desse espectro geracional.

Pois Dee Dee resolveu montar um repertório resultado da “investigação do seu passado”. “Meu círculo de vida foi fechado. Agora eu me entendo em sua totalidade. Meu espírito está tranquilizado.” Seu propósito de vida, afinal, ficou entremeado de tudo do que ouvia no rádio. É por isso que o nome do álbum é “Memphis… Yes I’m Ready!”. Foi nesta cidade que nasceu, em 27 de maio de 1947.

Como na música de Al Green, Sam Cooke, Aretha Franklin e outros, algumas características são marcantes na música gospel americana, soul, blues, ou, para ser mais abrangente, do rhythm’n’blues: backing vocals, naipes de sopros e sons do órgão Hammond. Tudo está presente em “Memphis…”. Clássicos de compositores e intérpretes como Norman Whitfield e Barrett Strong, Isaac Hayes, Margaret Ann Peebles, Otis Blackwell, Jerry Leiber e Mike Stoller, Van McCoy compõem esse álbum impecável e poderoso.

Com sua voz cheia daquela energia própria dos negros, apesar de sua mãe – a quem o disco é dedicado – nunca tivesse querido que Dee Dee cantasse blues, quando começou a cantar profissionalmente, “Memphis…” é candidato a ser o melhor álbum do ano em um gênero que não é jazz. Confira.

Ouça a clássica “Sound Dog”, que ficou famosa na voz de Elvis Presley.



A clássica “Try a Little Tenderness”. Foi até cantada por Frank Sinatra, mas a clássica mesmo é a de Otis Redding.


 

Ouça “Why (Am I Treated So Bad)”, de Roebuck Staples.



Provavelmente, a mais conhecida interpretação de “The Thrill Is Gone” é a de B.B. King, mas a de Bridgewater também é excepcional. O Hammond B3 faz a diferença.


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