terça-feira, 8 de abril de 2014

O quase ocaso de Macy Gray

Quando On How Life Is foi lançado, em 1999, algo mudava no cenário da música americana. Macy Gray surgiu para desafinar o coro dos contentes. Tinha uma voz um tanto estranha para os padrões, algo parecida com a de Pato Donald. Mas foi fazendo tremendo sucesso e logo ganhando um Grammy em 2001 como “melhor vocalista pop feminina”. Lançou Id, que não vendeu tanto, mas era muito bom. O seguinte foi The Trouble with Being Myself. Os dois títulos eram sinalizadores de uma personalidade complexa. Macy fugia do modelo boa menina. Meio gordinha, não exatamente bonita, com penteado de fazer inveja à ativista Angela Davis e, dizia-se, um tanto chegada aos excessos etílicos. Foi vaiada em certa ocasião depois de esquecer a letra do hino americano em um evento esportivo. Continuou fazendo das suas: expulsaram-na de Barbados por soltar alguns palavrões em um show.

Uma ou outra música emplacando nas paradas, mas parecia que a carreira de Macy não estava indo tão à altura de seu talento. Lançando discos com periodicidade irregular, hoje, não se fala mais tanto dela. Lançou, entretanto, coisas boas como The Sellout, lançado em 2010 pelo prestigiado selo de jazz Concord, não tão grande como a Epic, sua gravadora anterior. Em 2012 saiu Covered. Como o título sugere, é um álbum de covers. Mas discos assim são, muitas vezes, vistos como sinal de esgotamento de um intérprete/compositor. Bom, mas existem tantos discos bons desse gênero que desmentem isso. Basta lembrar-se de dois da também america Cat Power: The Covers Records (2000) e Jukebox (2008).

The Sellout é um bom disco. A crítica se dividiu, mas possui boas canções como Beauty in the World, Real Love, onde divide vocais com Bobby Brown, Help Me e Kissed It. É esta última a que você vai ouvir.




Covered é um disco interessante pelas canções escolhidas. Canta Creep, do Radiohead, Here Comes the Rain Again, do Eurythmics, e Wake Up, do Arcade Fire.

Veja Macy cantando Creep em apresentação no North Sea Jazz, que acontece na Holanda.




Ouça Wake Up, com Gray.




Outro álbum de covers?

Mas, aí, Macy resolve fazer outro álbum de covers. Será que ela está decadente? Não dá para falar isso. Para comemorar os trinta anos de Talking Book, 15º álbum de Stevie Wonder, Macy e seus produtores gravaram o repertório na íntegra no CD. São as mesmas canções, na mesma ordem. Esse álbum é um dos mais importantes de Wonder e representa uma virada na sua carreira, iniciada quando tinha onze anos. O de Macy, em vez de ser uma simples álbum de covers, na verdade, é uma coleção de interpretações muito originais e com sua marca. Algumas são deveras boas.

Ouça Superstition. É muito boa.




Outra? Tem uma versão matadora de Blame It on the Sun.




Ao contrário do que se imagina ou parece, Macy está ativa e operante. Gravou recentemente com o saxofonista David Murray e sua banda. Apresentaram-se no ano passado no Sesc Fábrica, São Paulo. Depois de amanhã, 10 de abril, estará se apresentando no Circo Voador, no Rio de Janeiro. E, veja: a moça não tem nada de superstar; pediu para que tenha no seu camarim apenas uma garrafa de vodca, uma de Cointreau e chá de camomila. A mistura deve ser boa e Macy deve entrar no palco com tudo.

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