No último dia 10, Allen Toussaint sofreu um ataque de coração no hotel, em Madri, e não resistiu. Excursionava pela Europa e tinha um show marcado com Paul Simon no começo de dezembro com renda a ser revertida para a New Orleans Artists Against Hunger and Homelessness, organização de caridade da qual Toussaint foi um dos fundadores.
Toussaint ganhou reconhecimento tardio, mas do público. Era venerado pelos músicos por seu trabalho como produtor, diretor musical e compositor, bem antes de lançar From a Whisper to a Scream. seu primeiro álbum como líder. Isso foi em 1970. Sua estreia no mundo do disco, no entanto, havia se dado em 1958 com The Crazy World of New Orleans, assinando como Al Tousan. Os Rolling Stones, Aaron Neville, The Yardbirds, Irma Thomas, Oti Redding, dentre outros, gravaram suas composições. Era um cara de bastidores e ajudava não ser conhecido assinar suas músicas como Naomi Neville, o nome de sua mãe.
Era de New Orleans. Diferentemente de outros nativos da terra do dixieland, de Louis Armstrong e do clã Marsalis, seu gosto inclinava-se ao rhythm’n’blues, consequentemente, ao rock e ao funk. Ao lançar The Crazy World of New Orleans, todo instrumental, Allen mostrava ao que tinha vindo. Em vez de continuar a gravar, aceitou um convite para ser A&R do selo Minit. Foi produtor de inúmeros sucessos e emplacou várias composições neste selo e no seguinte, que foi criado por ele e o produtor Marshall Sehorn. Na década de 1970, quando lançou Toussaint, relançado como From a Whisper to a Scream, participou, como produtor principalmente, e também como arranjador de álbuns de Paul McCartney, Dr. John, The Band, John Mayall, Etta James, Patti Labelle, dentre outros.
O legado
The Bright Mississippi é um dos grandes álbuns de Toussaint. Lançado em 2009 por uma gravadora maior, a Nonesuch, serve como síntese de sua genialidade em um álbum que se inclina mais ao jazz do que a outros ritmos.
O lançamento do discoi foi acompanhado de críticas entusiasmadas. Menos rhythm’n’blues e mais jazz, mesmo assim, Toussaint, afirmava suas raízes. Afinal, New Orleans é a terra de Louis Armstrong, Lil Harding, genial pianista e compositora uma das mulheres do trompetista, o berço do ragtime, que teve como expressões Buddy Bolden, Sidney Bechet e Jelly Roll Morton.
Allen, ao piano e nos vocais (em Long, Long Journey) e um conjunto estelar do qual participam Don Byron, Marc Ribot, David Piltch, Jay Bellrose e Nicholas Payton fizeram um disco excepcional, delicioso, quente e contagiante. Seu piano é o eixo. O violão de Ribot relembra o estilo de Django Reinhardt e de ritmistas como Freddie Green. O trompete de Payton, este, natural de New Orleans, e a clarineta de Don Byron, em conjunto com o contrabaixo bem marcado de Piltch e a bateria de Bellrose rememoram temas caros como West End Blues, de King Oliver, St. James Infirmary, e Egyptian Fantasy, de Sidney Bechet.
Ouça Egyptian Fantasy, a primeira do disco.
Ouça St. James Infirmary.
The Bright Mississippi conta com participações especiais em dois números: Brad Mehldau em Winin' Boy Blues, de Jelly Roll Morton, e Joshua Redman Daydream, de Billy Strayhorn e Duke Ellington.
Ouça o duo de Mehldau e Tossaint. Belíssimo.
O sax tenor de Joshua Redman e o piano de Toussaint.
O piano de Allen Toussaint era realmente especial, não? Sua elegância não era apenas no vestir. Toussaint era a própria expressão da elegância.

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