O mundo não vive nem necessita de obras-primas para existir. Poderíamos viver sem elas, mas coisas belas e/ou sublimes fazem bem ao pensamento, aos olhos e à vida. Pode-se prescindir de Hitchcock, Godard, Fellini, Ozu, ou Antonioni. Se o mundo não fica melhor com filmes desses excepcionais diretores, pelo menos, fica mais interessante. O que são consideradas obras-primas correspondem a uma porcentagem muito pequena entre milhões de filmes excelentes, bons, ruins e péssimos. Mas todos, sem exceção, estão capacitados a fazer o gosto de alguém. O foco aqui é o cinema, mas essa ideia pode ser expandida para qualquer outra forma de manifestação artística.
Um filme recentemente lançado em formato DVD em junho deste ano e exibido em circuito comercial em 1990, O Marido da Cabeleireira, é um daqueles que a crítica especializada não colocaria no panteão das obras-primas. Mas, suponho que, muitos como eu, o classificaria como “inesquecível”, por uma série de razões. Tenho a certeza de que muitos homens ficaram sonhando com Anna Galiena, a cabeleireira, depois de terem visto o filme, tanto como a personagem interpretada por Jean Rochefort, o voyeur que, menino ainda, tem fixação pela senhora (bem) acima do peso, peitos fartos e coxas grossas, dona, presumivelmente, da barbearia (era assim que se chamavam, antigamente, os estabelecimentos em que se cortava cabelo e se fazia a barba). Um dia, o menino entra na barbearia e a encontra caída no chão. De seu ângulo, o que vê é um par de pernas e, onde se unem, um pequeno triângulo branco, uma nesga de sua roupa de baixo. Ela está morta.
O menino cresce e “vira” Jean Rochefort (Antoine). Continua a frequentar o salão, em que o dono agora é um senhor de idade que, posteriormente, passa o comando à sua funcionária predileta, Mathilde. A atriz Anna Galiena, que representa a cabeleireira, não é nenhum modelo de beleza. Assim mesmo é bela. Essa qualidade não está na perfeição dos traços de uma boca, no formato de um rosto ou nas suas curvas. Encontra-se, isso sim, na harmonização das partes. Galiena é o conjunto que pode muito bem alimentar as fantasias de um espectador do sexo masculino ou alimentar a fixação obsessiva de Antoine por cabeleireiras, e claro, das mulheres também. Enfim, casa com Mathilde. Pelo que fica subentendido, depois que casa, não faz nada além de admirá-la cortando o cabelo ou fazendo a barba dos clientes. Aparentemente não é só ele quem se sente feliz no casamento. Mas a felicidade tem um limite, até pelo medo de perdê-la.
Leconte tem outro filme, tido por muitos como o seu melhor: Um Homem Meio Esquisito (Monsieur Hire, 1989). Assistindo-se a ele compreende-se melhor O Marido da Cabeleireira. Hire, interpretado pelo “esquisitão” Michel Blanc, é um alfaiate que passa a acompanhar a vida da bela Alice (Sandrine Bonnaire), moradora do prédio da frente, como em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. A história é baseada em romance de Georges Simenon. O filme é sombrio, com belas luzes e maravilhosa trilha – um quarteto de cordas de Brahms, não me lembro qual. Em ambos é a obsessão voyeurista. Um parêntesis: o título “meio esquisito” de Mr. Hire foi dado por Jean-Gabriel Albicocco, à época, presidente da distribuidora Gaumont. Albicocco teve uma carreira meteórica como diretor de cinema emplacando um grande sucesso crítico quando tinha apenas 24 anos. A Garota dos Olhos Dourados (La fille aux yeux d’or, 1961) lançou a jovem Marie Laforêt e foi considerado por Susan Sontag como o grande filme da estética por ela designada “camp”. Depois de alguns fracassos desistiu da carreira de diretor, encantou-se pelo Brasil e tornou-se responsável pela vinda da maior empresa cinematográfica francesa a este país.Parabéns à Lume Produções, responsável por esse e tantos outros bons lançamentos. A única coisa imperdoável é a capa criada pela empresa para O Marido da Cabeleireira – quatro imagens de cachos de cabelos. É horroroso e quase horripilante. É inexplicável que não tenham usado a imagem original, um plano fechado sobre Galiena, de vestido vermelho, sentada à contraluz, absorta com alguma revista enquanto espera um cliente. Algumas versões de cartazes usaram um corte mais radical: a imagem fechada mostrando apenas o vestido e as pernas cruzadas.
O DVD lançado no começo de junho está à venda no site da 2001 Vídeo, possuidora do melhor acervo de filmes de arte. Tenha em sua coleção. Vale a pena.

Nenhum comentário:
Postar um comentário