De estranho, Carlos Nuñez não tem nada. Estranho mesmo é, em nome da justiça ou da liberdade, cometerem-se as maiores atrocidades e ignomínias. Desse modo, as fronteiras europeias quando pareciam consolidadas no fim do último século continuaram a mudar. Os vizinhos de ontem se tornaram inimigos de hoje. Ancestrais mudanças dos limites geográficos, em parte, são a razão do espanhol Nuñez tocar gaita de fole.
A Galícia, seu berço natal, possui raízes celtas. Esse nome se origina de Gallaecia, assim identificados esses habitantes da Península Ibérica no tempo do Império Romano. Valores culturais são perenes. A presença dos jesuítas no Japão no século XVI ou a de holandeses e judeus no Nordeste brasileiro na época de Maurício de Nassau são percebidos até hoje. Os celtas habitaram uma boa parte da Europa no Mundo Antigo, mas a associação mais imediata, nos dias de hoje, acontece com países como a Irlanda, o País de Gales, a Escócia e regiões próximas. Quem faz música com raízes no folclore celta? O primeiro a ser lembrado é um grupo que existe há 40 anos, o The Chieftains. Nos anos 1960 e 70, algumas formações como o Fairport Convention e o Clannad – de onde saiu Enya consagrar-se internacionalmente – foram associadas a essa corrente. Na esteira de Enya, cujo nome de batismo é Eithne Patricia Ni Braonain – em gaélico significa “Eithne, filha de Brennan” –, surgiu outra boa intérprete: Loreena McKennitt.
Não é de surpreender, então, o fato de Nuñez, além da gaita de fole, mais associada à imagem dos desfiles de homens paramentados de saias e meias xadrezes, tocar uma flauta conhecida como “pan whistle”. Pelo que registra Fernando Conde, autor das notas incluídas no encarte, a gaita de fole é o instrumento folclórico mais comum na Galícia. Ainda ligando os pontos dessa “transculturalidade”, isso que tem raízes na cultura celta, ramifica-se até o Brasil. A maior parte dos imigrantes de origem espanhola, no Brasil, são galegos. Nos anos 1910-20 aportaram cerca de 25 mil espanhóis na Bahia. Outro lugar que recebeu uma grande leva – cerca de 50 mil – foi a Argentina. O bisavô de Nuñez emigrou para o Brasil, mas seus parentes nunca mais tiveram notícias. As terras nacionais poderiam até ser consideradas como uma “extensão” da Galícia. Segundo Conde, o português e o galego nasceram do “galego-português medieval, língua criada a partir do latim” e por essa razão são próximas. O galego era a língua oral das classes populares que vigeu até o século XV e foi sendo substituída pelo castelhano.
A ideia de gravar o CD Alborada do Brasil, pois então, é uma forma de “amarrar” essas conexões ancestrais da música. Nuñez tem como convidados a cantora Fernanda Takai, o pernambucano Lenine, o baiano Carlinhos Brown, o baterista Wilson das Neves – cantando! –, os gaúchos Yamandú Costa e Adriana Calcanhoto, o acordeonista Dominguinhos, o niteroiense/paulista André Mehmari, além do produtor Alê Siqueira. E o que poderia ter virado uma salada indigesta resultou em bela alquimia de signos culturais diversos. Na primeira faixa, Alborada de Rosalía, Fernanda Takai solta a voz doce numa língua que, prestando-se um pouco de atenção, nota-se que realmente é muito próxima à portuguesa.
O texto de Fernando Conde é extenso e procura explicar – ou aclarar – que, em verdade, tudo se cruza e se encontra em algum lugar. Esse lugar chama-se mundo. Que aconteça, na rota Brasil-Galícia-países celtas, tudo emboca no lugar dos cruzamentos interculturais. É a riqueza do trovadorismo medieval que se encontra nas formas musicais nordestinas, por exemplo. Nessa busca, Carlos Nuñez produz estados de encanto como o encontro da cultura europeia com a brasileira que “gera” o choro Vou Vivendo de Pixinguinha, ou em que Lenine canta “conexões galegas e irlandesas“ em Nau Bretoa – já que a Bretanha é “considerada uma das sete nações gaélicas”, que, por sua vez, se conecta às raízes bretãs do pernambucano – seu avô era bretão –, ou no xote, que segundo Conde, vem de “chotis, Scottish, uma espécie de ‘show reels’ – como são chamados na Irlanda e Escócia – ou ‘rilos’ – como se diz no Brasil” tocado por Dominguinhos ou nas composições “sanfonísticas” de Luiz Gonzaga, que por fim, desemboca em Maxixe de Ferro, composição de um certo José M. Nunes – e Pixinguinha, encantado, gravou – que, muito bem pode ser José Maria Nuñez, o avô de Carlos Nuñez, responsável por esse belo registro que é Alborada do Brasil (Sony, 2009).
Veja e ouça:
Mar Adentro
Muiñeira de Chantada:

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