Desde 2002, Peter Gabriel não lançava algum disco. Agora, neste ano, sem muito barulho, saiu o Scratch My Back. Como sempre, Gabriel invariavelmente tem uma surpresa. Fez um disco de covers. Bem, até aí não é nenhuma novidade: tantos fizeram! O diferencial é o conceito. Desta vez se propôs a gravar músicas alheias, e a seus compositores foi proposto que gravassem as suas. Ele fez a parte dele. A contrapartida, como ele mesmo diz, “acontecerá mais tarde.” O título é referente a essa ideia: “você coça as minhas costas e eu, a de vocês.”
Desde o início de sua carreira, esse hoje jovem senhor de 60 anos, “fez diferente” e continuou em sua jornada de ser um indivíduo mutuante, como David Bowie.
A originalidade vem dos tempos em que formou o Genesis. Representantes do rock progressivo britânico, apesar de certa pretensão em suas propostas em realizar álbuns como suítes, em que as partes se completam, várias bandas dessa época conseguiram fazer discos que, até hoje, se sustentam. Um diferencial do Genesis eram as apresentações ao vivo, sempre teatrais. Gabriel costumava se apresentar mascarado ou maquiado em roupas extravagantes.
Depois de sair do Genesis, construiu uma carreira solo representativa. Dessa época as músicas mais conhecidas são Biko, Shock the Monkey, I Don’t Remember, Not One of Us, Sladgehammer, San Jacintho e mais uma penca de sucessos. Compôs música para cinema – Birdy e A Última Tentação de Cristo. Criou a gravadora Real World e produziu uma série de discos com músicos árabes, africanos e sul-americanos até então pouco conhecidos no mercado do Primeiro Mundo. Foi, com o tempo, perdendo os cabelos e hoje se parece um pouco com o escritor Paulo Coelho, mas diferente deste, conservou o talento.
Qualquer receita depende dos ingredientes. Em Scratch My Back, prescinde da cozinha tradicional – bateria, baixo e guitarra – e fez um CD com orquestração John Metcalfe. A energia em todas as faixas é contida, e as músicas são, sem exceção, melancólicas e reflexivas. Juntou um punhado de canções preferidas e construiu versões personalíssimas de David Bowie (Heroes), Paul Simon (The Boy in the Bubble), Lou Reed (The Power of the Heart), e Neil Young (Philadelphia), dentre outros. Antenado, gravou composições mais contemporâneas como My Body Is a Cage (Arcade Fire), Street Spirit (Radiohead) e Regina Spektor (Après Moi). Esta última é um dos pontos altos do disco. Apesar da orquestração, às vezes, lembrar Philip Glass e Steve Reich, compositores eruditos minimalistas, o resultado geral é brilhante. Mais uma vez, Peter Gabriel surpreende.
Ouçam Après Moi, de Regina Spektor:

Nenhum comentário:
Postar um comentário