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| O pianista Alfredo Rodriguez, a mais nova revelação |
Não sou fã de rum depois da monumental ressaca com que fui acometido em razão de algumas doses do nobre destilado, envelhecido por 12 anos em barricas de carvalho, trazidas por uma amiga que recebera de presente do staff do então governante Fidel Castro. Os charutos, infelizmente, fumo-os por vício e não especificamente por prazer. É, no mínimo, um por dia; isso porque estou em processo de tentar parar.
Mas, vamos falar de um produto de exportação de valor universal: a música. Devido a proximidade geográfica, Cuba era importante ponto turístico pela beleza da paisagem e os clubes noturnos. Ricaços possuíam luxuosas residências, com direito a campos de golfe, outros eram donos até de plantações de tabaco. Até o genial pianista Arthur Rubinstein, bon-vivant, apreciador de boas bebidas e charutos possuiu a sua.
Quando o ditador Fulgêncio Batista caiu, os cassinos e clubes foram fechados. Um sem número de músicos, que tocavam nesses lugares, viram-se sem trabalho da noite para o dia. Alguns como Bebo Valdés saíram do país. A maioria ficou por lá e deixaram de ter suas vidas de fausto e foram obrigadas a encarar até trabalhos braçais. No meio deles, estavam Compay Segundo, Pio Leyva, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Rubén González e outros que, antes tarde do que nunca, foram “redescobertos” após a exibição do documentário Buena Vista Social Club.
Rubén González tinha se retirado da cena musical. Quando convidado a participar da gravação de Afro-Cuban All Stars, por Juan de Marcos Gonzalez, recusou alegando sofrer de artrite e não mais chegar perto do piano há 11 anos. Acabou por topar em razão da insistência. Na mesma época, Ry Cooder estava em Havana para gravar Buena Vista Social Club. Ouviu González tocando no estúdio da Egrem. Ficou impressionado com sua versatilidade. Antes, chegara a trabalhar como engraxate.
Como consequência do sucesso do álbum organizado por Cooder e do documentário, vários de seus participantes lançaram discos solo. Um deles foi Introducing… Rubén González. Ironia o “introducing”: tinha 77 anos a era uma das revelações da música. Ry Cooder afirmara que ele era o maior solista de piano que já ouvira em sua vida.
Ouça Sibonney, de Ernesto Lecuona, com González.
Outro grande pianista cubano seria “revelado” por meio de um documentário: Bebo Valdés. Poucos anos depois de Buena Vista Social Club, o espanhol Fernando Trueba realizou Calle 54, abordando o jazz latino-americano. Alguns dos participantes, como Eliane Elias, Gato Barbieri e Paquito D’Rivera, este, um refugiado do regime castrista, eram conhecidos, mas Bebo, não. Pouco após a queda de Batista, foi para os EUA, México e, por fim, fixou-se em Estocolmo. Suecos gostam de jazz mas, convenhamos, seria difícil que alguém fosse se lembrar de Bebo “escondido” em um lugar como lá.
Trueba realizou outros documentários tendo como protagonista Bebo. Num deles, o cubano vai parar na Bahia (El Milagro de Candeal, 2004). Nele é mostrado o belo trabalho social de Carlinhos Brown com os meninos do Candeal. O outro é estritamente musical. É o encontro de El Cigala e o cubano e o show Lágrimas Negras, que fizeram juntos.
Vejo El Cigala e Bebo em Veinte Años.
Pianistas pós-revolucionários
Como Chucho Valdés, Gonzalo Rubalcaba é filho de pianista, o primeiro, de Bebo, e ele, de Guillermo Rubalcaba. Um jornalista brasileiro desavisado, na ocasião em que veio ao Brasil (sua relação com o país tornou-se estreita e chegou a gravar com Ivan Lins), escreveu que era filho de Rubén González. Pode se perdoado pelo engano em razão do número de “dinastias” musicais em Cuba.
Gonzalo Rubalcaba não viveu a época dos velhos mestres, tampouco o de Chucho. Nasceu em 1963. Outro bom tecladista é Roberto Fonseca, de 1975. A mais nova revelação no piano é Alfredo Rodriguez, de 1985. Circunstancialmente, pode-se imaginar que nasce um grande talento nesse instrumento de dez em dez anos. Os três vieram de famílias de músicos, como foi dito no parágrafo anterior, e estudaram em conservatórios.
O primeiro álbum que tornou Rubalcaba conhecido foi Discovery, registro ao vivo de apresentação no festival de Montreux, de 1990, lançado pelo selo Blue Note. Os músicos que o acompanha são Charlie Haden e Paul Motian. Extremamente ágil, técnica impecável, não tinha como não impressionar o mundo do jazz.
Ouça Well You Needn’t, de Thelonious Monk.
Veja uma apresentação do quinteto de GR no Festival de Vitoria-Gasteiz, em 2013.
Roberto Fonseca é outro pianista que merece atenção. Menos pirotécnico do que Rubalcaba, prefere valorizar a melodia e, como os outros, não foge dos ritmos cubanos que o mundo bem conhece desde que Dizzy Gillespie os apresentou ao mundo. Um pouco diferente de Rubalcaba, adiciona vozes. Em Zamazu (2007), Omara Portuondo é a vocalista na bela Mil Congojas, e na faixa que abre o disco – Misa Popular –, é Mercedes Cortes Alfaro, sua mãe. Fonseca teve alguns CDs lançados no Brasil, provavelmente, por ser o produtor Alê Siqueira, que participou de discos de Marisa Monte
Ouça Tierra en mano, do álbum Zamazu.
Veja Roberto Fonseca tocando Llego Cachaito, composta em homenagem ao baixista Cachaito Lopez.
Alfredo Rodriguez é o nome da vez do piano cubano. Jovem ainda – nasceu em 1985 –, arrumou um bom padrinho: Quincy Jones. Teve seu primeiro disco lançado pela Quest, gravadora do americano responsável pelo estouro de vendas de Michael Jackson. Agora no início de 2014, acaba de ser lançado The Invasion Parade. Nele estão incluídos alguns clássicos latinos: Guantanamera, Quizás, Quizás, Quizás e Veinte Años. As interpretações de Rodriguez para esse álbum já é uma grande recomendação.
Veja Rodriguez com seu quarteto em ação no Festival de Montreux de 2012 tocando Guantanamera.
No primeiro álbum – Sounds of Space –, Rodriguez conta com vários músicos diferentes em cada faixa. Em Invasion, é um quarteto: ele ao piano, Esperanza Spalding no contrabaixo e vocais, Henry Cole na bateria e Pedrito Martinez na percussão e vozes.
Ouça a bela Quizás, Quizás, Quizás.

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