quinta-feira, 5 de outubro de 2017

World Saxophone Quartet foi pura inovação

Na adolescência, tinha amigos mais e menos caretas (essa é uma expressão demodé, mas quem não a conhece desconfia o que pode significar). Transigir faz parte do crescimento das pessoas, principalmente nesse período. É uma maneira de conhecer o novo. Por isso, pelo menos nos anos 1960/70, experimentar drogas leves como a maconha era considerado perigo supremo, assim como as moças não serem mais virgens. Era a forma de você ir contra o sistema.

Bom, não sei se tem a ver ou não, mas a minha turma não estava a fim de ficar a ouvir Chico Buarque ou MPB4. Queriam ouvir Emerson, Lake & Palmer, Rolling Stones, Led Zeppelin, King Crimson e outros mais. Até os Beatles eram um tanto certinhos para alguns. Ainda bem que as pessoas mudam e reavaliam suas opiniões. Pelo menos, aquele que não gosta de Chico pode ter argumentos mais racionais além do “não gosto e pronto”.

Por algum acidente e uma curiosidade enorme, meus interesses musicais se expandiram para o jazz, inicialmente por algumas bandas de membros oriundos dos anos elétricos de Miles Davis, como Weather Report, liderado por Joe Zawinul, Wayne Shorter e Miroslav Vitous, Return to Forever, liderado por Chico Corea, e, saindo desse espectro, a inglesa Soft Machine. Melhor: era o que via como jazz.

Com o tempo, parecido ao que aconteceu quando tinha 13 ou 14 anos, por curiosidade também e por ler bastante sobre o assunto – passei a assinar a revista Downbeat –, comecei a procurar conhecer o que era considerado “mainstream” e, portanto, careta e antiquado: Duke Ellington, Count Basie, Art Tatum e outros. Aliás, quando estava nos primeiros ano da faculdade, saíra uma leva de álbuns de Tatum. Gostei tanto que amigos que vinham em casa, eram obrigados a ouví-los. Um dos discos era do pianista com Ben Webster. Até hoje é um dos meus “desert island records”.

Apaixonei-me pelo saxofone tenor. Eram meus ídolos Ben, Coleman Hawkins, Lester Young, John Coltrane e, depois, Dexter Gordon. 

O quarteto original
Um quarteto de ases
Uma amiga, depois de um casamento frustrado, que não deve ter durado um ano, foi passar uma temporada na Califórnia. Voltou com vários discos na bagagem. Um deles era “Low Class Conspiracy”, de David Murray. Outro era “Steppin’ with The World Saxophone Quartet”. Peguei emprestado, aliás, todos os LPs, e gravei-os em fitas cassete, a mídia regravável mais comum à época.

A partir de então, outro saxofonista entrou na minha lista. Era um jovem de 21 anos quando gravou “Low Class Conspiracy”. Tinha a ferocidade de Albert Ayler, saxofonista avant garde morto seis anos antes deste álbum, aparentemente por suicídio, mas com um som menos áspero e mais palatável. Murray, com Fred Hopkins e Steve Wilson, os que tocaram com ele no disco, eram parte da linha evolutiva que teve Ayler como um de seus expoentes. Minha amiga não tinha gostado dele. Tentei fazer com que ela o vendesse para mim. Mas, não gostava de se desfazer das coisas, mesmo que não gostasse. “Low Class” apresentou-me outro veio a ser explorado. Assim, interessei-me por Anthony Braxton, Art Ensemble of Chicago, Air, belíssimo trio formado por Henry Threadgill, Steve McCall e Hopkins, o mesmo que tocou com Murray, e outros, membros da célebre AACM – Association for the Advanced of Creative Musicians.

“Steppin’” era tão inusitado quanto o segundo álbum de Murray como líder. Formado por ele, no saxofone tenor e clarineta baixo, Julius Hemphill, no sax alto, soprano e flauta, Oliver Lake no alto e soprano, e Hamiet Bluiett na clarineta alto e sax barítono, o World Saxophone Quartet fazia um jazz avant-garde sem a chatice de algumas outras formações e, além de tudo, tinham humor. Ao longo do tempo, a formação mudou e hoje é menos interessante. 

Ouça “P.O. Cairo”, do primeiro álbum da banda.



Óbvio que chega uma hora em que a fórmula se esgota e cansa até seus membros. Além da troca de alguns, por morte, inclusive, caso de Julius Hemphill, falecido em 1995, em alguns álbuns houve o acréscimo de outros músicos, como Jack DeJohnette e percussionistas africanos, em “Selim Sivad” (1998), tributo a Miles Davis, ou em “Breath of Life” (2006), em que contam com Fontella Bass nos vocais, Donald Smith ao piano, Amina Claudine Myers no órgão e piano, além de baixistas e bateristas, o que, na minha opinião, faz perder um pouco a graça de o ritmo das composições ser marcado pelos contrastes entre os registros da cada instrumento de sopro.

Ao longo do tempo, alguns outros saxofonistas fizeram parte da banda, como Arthur Blythe, Eric Person, James Carter e James Spaulding. Os melhores álbuns são os que foram lançados pelo selo italiano Black Saint. Posteriormente, foram para a Elektra Nonesuch. São bons ainda, dentre os quais, destacam-se “WSQ Plays Duke Ellington”, “Selim Sivad”, e “Rhythm and Blues”. Passaram para a canadense Justin Time, e “Yes We Can”, de 2010, pela Jazzwerkstatt, slogan da campanha do ex-presidente Barack Obama.

Ouça o clássico “In a Sentimental Mood”, de WSQ Plays Duke Ellington, de 1986.



Duke Ellington é um dos gênios do jazz. Deixou muitos belos temas. Ouça “Come Sunday”.



Outro bom álbum é “Rhythm and Blues”, com clássicos da música negra, como “Night Train”, Let’s Get It On”, “(Sittin’ in the) Dock of the Bay” e “Try a Little Tenderness”.



Gravaram também “Experience” (Justin Time 2004), tributo a Jim Hendrix. É menos interessante, mas vale ouvir e ver a banda tocando “Foxy Lady”. Nesse disco, contam também com Billy Bang no violino, Matthew Garrison no baixo, Craig Harris no trombone e Gene Lake na bateria. No lugar de Julius Hemphill, toca Bruce Williams.

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