O que surpreende – não único, se lembrarmos de Hank Jones, falecido em maio de 2010, pouco antes de completar 92 anos, na ativa até os últimos dias – é que Bebo nasceu em outubro de 1918, portanto, cinco meses depois do americano, e continua a tocar, quando muitos que chegaram nessa idade preferem ficar em suas casas, de pijama.
O Valdés famoso, até então, era Chucho, seu filho, fundador da banda Irakere, que nos anos 1970, fez enorme sucesso nos EUA, gravando pela major Columbia Records. Nessa altura, Bebo residia na terra natal de sua mulher sueca e pouco se sabia dele.
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| Carlinhos Brown, Bebo e Trueba |
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| Bebo e Diego El Cigala |
O show em DVD faz parte de um pacote que inclui um documentário dirigido por Carlos Carcas. Não é um making of. É bem mais. Assistimos aos ensaios, aos encontros nos quais improvisam com Bebo no piano elétrico sobre a mesa de centro, bem como com Cigala e outros músicos percutindo ritmos flamencos com as mãos, um menino com surpreendente noção de ritmo tocando chocalho, Bebo contando das suas influências de músicos eruditos como Albéniz, Joaquín Turina e Granados, das semelhanças da música cigana e a cubana. Brincando, depois da performance do espanhol e amigos, pergunta se aquilo é música cubana ou cigana.
Conhece-se mais a dança flamenca que a música. Na década de 1980, fez sucesso razoável uma banda chamada The Gipsy Kings. São franceses de raízes espanholas que formaram esse conjunto. Com a fama, vieram as críticas, principalmente da parte dos cultuadores do verdadeiro flamenco. “Eu, tu, eles” não sabemos tanto dessa cultura. Não é um estilo tão propagado como o tango ou a rumba. Está mais circunscrito ao gênero folclórico, como a música feita pelos irlandeses The Chieftains ou o “ajuntamento” Les Voix Bulgaires. Como são gêneros muito locais, é necessário um “período de adaptação” para se fazer um juízo. Não são coisas que fazem parte de um gosto comum.
Pois é preciso desligar o botão dos preconceitos e preparar-se para ouvir algo bem diferente. O flamenco tem um tipo de canto que tende aos registros mais agudos, daí a sensação de que seus intérpretes estão se “esguelando”. El Cigala tem a voz levemente rouca e, pelo documentário, vê-se que tem dificuldades em atingir os registros mais agudos. Sem ser um defeito, isso acrescenta certa dose de dramaticidade ao seu canto.
Esse documentário registra vários momentos de emoção. Primeiro, pela própria figura de Bebo, de expressão plácida, mas falante, animado e, quando está ao piano, nos faz silenciosos para ouvi-lo. É o que acontece em certo momento, quando Bebo improvisa sobre o tema de Vivir y Amar, de Consuelo Velásquez. O cantor se emociona, e nos emociona também ao vermos a emoção de ouvir Bebo num crescendo até as lágrimas derramadas. O cubano narra outro momento em que Trueba, sua mulher e os amigos choram ao ouvi-lo tocar Vete de Mí.
Está reservado o momento especial aos brasileiros quando os dois interpretam Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes e Antonio Carlos Jobim. O canto emocionado – no refrão, então! – de Bebo é intercalado pelos versos declamados de Coração Vagbundo por Caetano Veloso. O DVD foi lançado no Brasil e deve ser ainda encontrado em sites e lojas especializadas.
Mal sabia da existência de Bebo e o primeiro contato foi com esse estupendo DVD com El Cigala. Meses depois, assisti a O Milagre de Candeal. Como nada dele foi lançado em CD, recorri aos importados. O álbum solo, Bebo (2005), é maravilhoso. Somos levados por uma corrente marítima aos mares plácidos do som do cubano. O outro há pouco adquirido é We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), duo com o violinista uruguaio Federico Brito. Nessa álbum ambos passeiam pelas canções preferidas, sem limites geográficos, visitando o repertório brasileiro (Luiza), o latino dos boleros e tangos (Adiós Nonino), e pelos standards americanos. Sobre uma das músicas, La Rosita, leia em http://bit.ly/9tEOyp).
Bebo e El Cigala interpretam Vete de Mí:
Eu Sei Que Vou Te Amar:


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