quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sim. Bebo Valdés

Yoda, personagem do filme Guerra nas Estrelas, é um sábio e poderoso mestre jedi, “conhecedor da Força e do uso do sabre da luz.” A explicação é de um amigo admirador da série de George Lucas. Ao ver pela primeira vez a figura de Bebo Valdés, lembrei de Yoda; um pouco, por algum aspecto em sua aparência, o olho, o formato da boca, não sei. O comentário é casual, e afinal de contas, Valdés, com seu corpo levemente curvado sobre o piano, dedos longos que tocam as teclas, e as marcas do tempo que sulcam o rosto, passa um ar de serenidade e sabedoria.

O que surpreende – não único, se lembrarmos de Hank Jones, falecido em maio de 2010, pouco antes de completar 92 anos, na ativa até os últimos dias – é que Bebo nasceu em outubro de 1918, portanto, cinco meses depois do americano, e continua a tocar, quando muitos que chegaram nessa idade preferem ficar em suas casas, de pijama.

O Valdés famoso, até então, era Chucho, seu filho, fundador da banda Irakere, que nos anos 1970, fez enorme sucesso nos EUA, gravando pela major Columbia Records. Nessa altura, Bebo residia na terra natal de sua mulher sueca e pouco se sabia dele.

Carlinhos Brown, Bebo e Trueba
Paquito D’Rivera, outro que escapou das mãos de ferro de Castro, em 1994, convidou Bebo para gravar um disco na Alemanha. Bebo Rides Again representa sua rentrée no mundo da música. Mas o que o trouxe de volta à ribalta mesmo, foi o sucesso de Calle 54, do espanhol Fernando Trueba, um filme sobre o jazz latino. Posteriormente, realizou outro documentário, bem curioso, pelo menos para os brasileiros. O Milagre de Candeal (El Milagro de Candeal, 2004) foca no trabalho de Carlinhos Brown com projetos de inclusão social por meio da música da população mais pobre da cidade de Salvador. Valdés serve como fio condutor percorrendo ruas e lugares da Bahia, comentando sobre um lugar que, em muito, tem semelhanças com sua terra natal. Uma cena ótima é quando visita um centro de candomblé e o pai de santo entra em transe (é assim que se fala?). Os países caribenhos sofreram, como o Brasil, influências religiosas tribais dos negros vindos da África, e manifestações do candomblé e da umbanda não são exclusivas daqui. Portanto Bebo deve ter tido contato com a “santería”, uma variante trazida pelos iorubás. Mesmo assim, fica claro o desconforto do cubano na cena do pai de santo.

Bebo e Diego El Cigala
A parceria com o espanhol não se resumiu aos dois documentários e aos discos gravados pela gravadora Calle 54. Em 2003, gravou o show Blanco y Negro – Bebo & Cigala en Vivo em DVD. Fernando – que é como se refere Bebo ao diretor – promoveu um encontro dele com o cantor de música flamenca Diego El Cigala. Cigala (lagostim em espanhol), seu apelido, pelo fato de ser mutio magro, virou nome artístico.

O show em DVD faz parte de um pacote que inclui um documentário dirigido por Carlos Carcas. Não é um making of. É bem mais. Assistimos aos ensaios, aos encontros nos quais improvisam com Bebo no piano elétrico sobre a mesa de centro, bem como com Cigala e outros músicos percutindo ritmos flamencos com as mãos, um menino com surpreendente noção de ritmo tocando chocalho, Bebo contando das suas influências de músicos eruditos como Albéniz, Joaquín Turina e Granados, das semelhanças da música cigana e a cubana. Brincando, depois da performance do espanhol e amigos, pergunta se aquilo é música cubana ou cigana.

Conhece-se mais a dança flamenca que a música. Na década de 1980, fez sucesso razoável uma banda chamada The Gipsy Kings. São franceses de raízes espanholas que formaram esse conjunto. Com a fama, vieram as críticas, principalmente da parte dos cultuadores do verdadeiro flamenco. “Eu, tu, eles” não sabemos tanto dessa cultura. Não é um estilo tão propagado como o tango ou a rumba. Está mais circunscrito ao gênero folclórico, como a música feita pelos irlandeses The Chieftains ou o “ajuntamento” Les Voix Bulgaires. Como são gêneros muito locais, é necessário um “período de adaptação” para se fazer um juízo. Não são coisas que fazem parte de um gosto comum.

Pois é preciso desligar o botão dos preconceitos e preparar-se para ouvir algo bem diferente. O flamenco tem um tipo de canto que tende aos registros mais agudos, daí a sensação de que seus intérpretes estão se “esguelando”. El Cigala tem a voz levemente rouca e, pelo documentário, vê-se que tem dificuldades em atingir os registros mais agudos. Sem ser um defeito, isso acrescenta certa dose de dramaticidade ao seu canto.

Esse documentário registra vários momentos de emoção. Primeiro, pela própria figura de Bebo, de expressão plácida, mas falante, animado e, quando está ao piano, nos faz silenciosos para ouvi-lo. É o que acontece em certo momento, quando Bebo improvisa sobre o tema de Vivir y Amar, de Consuelo Velásquez. O cantor se emociona, e nos emociona também ao vermos a emoção de ouvir Bebo num crescendo até as lágrimas derramadas. O cubano narra outro momento em que Trueba, sua mulher e os amigos choram ao ouvi-lo tocar Vete de Mí.

Está reservado o momento especial aos brasileiros quando os dois interpretam Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes e Antonio Carlos Jobim. O canto emocionado – no refrão, então! – de Bebo é intercalado pelos versos declamados de Coração Vagbundo por Caetano Veloso. O DVD foi lançado no Brasil e deve ser ainda encontrado em sites e lojas especializadas.

Mal sabia da existência de Bebo e o primeiro contato foi com esse estupendo DVD com El Cigala. Meses depois, assisti a O Milagre de Candeal. Como nada dele foi lançado em CD, recorri aos importados. O álbum solo, Bebo (2005), é maravilhoso. Somos levados por uma corrente marítima aos mares plácidos do som do cubano. O outro há pouco adquirido é We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), duo com o violinista uruguaio Federico Brito. Nessa álbum ambos passeiam pelas canções preferidas, sem limites geográficos, visitando o repertório brasileiro (Luiza), o latino dos boleros e tangos (Adiós Nonino), e pelos standards americanos. Sobre uma das músicas, La Rosita, leia em  http://bit.ly/9tEOyp).

Bebo e El Cigala interpretam Vete de Mí:



Eu Sei Que Vou Te Amar:





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