terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mais mistérios de Cassandra Wilson

A formação musical de Cassandra Wilson passa pelo aprendizado com Gracham Moncur III, excelente trombonista, que gravou como sideman e líder na Blue Note nos anos 1960, e por Steve Coleman’s M-Base, grupo nova-iorquino experimental. Com uma voz de contralto, sofreu influências de Betty Carter, principalmente, e, menos, de Abbey Lincoln. Contratada pela gravadora alemã JMT, em seu primeiro disco – Point of View (1985) – mesclava a formação de vanguarda com standards (Blue in GreenI Wished on the Moon). Em Blue Skies, terceiro disco, há a predominância de clássicos do jazz como Shall We Dance, I’m Old Fashioned, My One and Only Love, Polka Dots and Moonbeams e I’ve Grown Accostumed to His Face, além, é claro, do clássico de Irving Berlin, que o nomeia. Acompanhada por Mulgrew Miller, brilhante pianista de jazz, era um disco, digamos, comercial. Até a capa, na qual é retratada com um vestido branco cheio de babados e com um penteado cuidadosamente ajeitado denotava essa “estratégia” da gravadora para torná-la mais popular, pelo menos, a um público com bom gosto voltado para a linguagem jazzística. Tinha 33 anos nessa época.

O sorriso de Cassandra
Os álbuns lançados posteriormente como contratada da major Blue Note demonstram uma Cassandra mais próxima de suas primeiras influências. Os discos ficaram mais com sua “cara”. Fusão de experimentalismos rítmicos, violão/guitarra produzindo sons pouco comuns, reinterpretou canções do repertório pop, do jazz (Strange Fruit, Skylark) e peças de sua lavra.

Os dotes vocais especialíssimos – de registro grave, tendendo ao “gélido” –, instrumentação priorizando elementos percussivos, violões de corda de aço em afinações diferentes, são elementos que a destacam de outras intérpretes do jazz. Wilson não fica fazendo scats e não tem aquele swing típico desse gênero. O que poderia ser considerado defeito é sua singularidade.

Cassandra tem soltado discos com regularidade. O último, Loverly (em novembro está programado o lançamento de Silver Pony), de 2008, é um bom parâmetro para a compreensão de seu “modo de interpretar”. Desde Blue Skies Wilson não grava tantos standards em um só disco. Para quem está acostumado às interpretações dessa espécie de músicas por cantoras contemporâneas como Diana Krall ou Jane Monheit, apenas para servirem como comparação, as dela são um tanto heterodoxas. É isso que a faz diferente e singular. Apesar de preferir as que mais fazem lembrar de como foram concebidas por seus compositores originais, deve-se reconhecer a qualidade de suas interpretações.

A primeira do CD, Lover Come Back to Me, é suingada, característica que não é o forte da cantora. Comparando-a com uma recente, a de Roberta Gambarini, no álbum Easy to Love, contagia, enquanto a de Wilson é a de um distanciamento crítico no qual se aquilata sua habilidade interpretativa.  O mesmo ocore ouvindo-se Black Orpheus (Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá), Caravan ou Gone with the Wind. Por gosto, prefiro a interpretação emocionada de Betty Carter, de 1955, quando ainda não tinha entrado nos exageros dos scats e improvisos vocais.

Outra composição que pode servir de bom parâmetro é a tradicional St. James Infirmary. Uma guitarra “funky” e uma bateria marcando o ritmo com o baixo serve de introdução a uma interpretação vigorosa. Para quem conhece outras versões como a de Louis Armstrong ou a do clã Marsalis no DVD A Music Celebration poderão compará-la. Enfim, nem tudo o que Cassandra Wilson fez até agora é para todos os gostos, no entanto, são incomparáveis alguns sucessos da música pop na sua voz, como Harvest Moon, Love Is Blindness e  The Weight.

Wilson é inigualável cantando baladas do repertório pop e do jazz, naturalmente. Ouça You Don’t Know What Love Is, antiquíssimo clássico de Don Raye.

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