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| O estilo Jean Seberg de Kat Edmonson |
Ter um contrato de distribuição por uma “major” como a Blue Note ou a Verve ajuda em muito; até por uma menor como a HighNote, a Concord ou a Savant. Os“gargalos” se inverteram. Antes, a hora estúdio era caríssima. Com o barateamento e miniaturização dos equipamentos ficou fácil montar um estúdio caseiro de 16 ou 32 canais. Com um PC, um programa como o ProTools, uma sala com bom isolamento acústico, pronto: está montado. Ficou fácil gravar e disponibilzar música na internet. Diivulgação é importante. As majors passaram a investir pesadamente em marketing disponibilizando milhões de dólares para uns poucos como Madonna e Michael Jackson em prejuízo aos produtos de menor apelo de venda. Mesmo assim, a boa música mantém seu nicho. Formadores de opiniões, um certo público menos “low brain” e bom poder de compra lotam ainda salas de óperas e de concertos, e espaços dedicados à música. Grandes empresas financiam centros como a Sala São Paulo, no Brasil, Lincoln Center e o Metropolitan Opera.
Um tanto à margem, artistas em início de carreira sofrem. Um intérprete desconhecido pode registrar sua música facilmente e, com um pouco de dinheiro, lançar uma tiragem de CDs e disponibilizá-lo na loja do iTunes. É um trabalho de formiga que pode dar frutos. Existem hoje milhões de CDs designados como “self release”. Se for bom, o poder multiplicador do boca a boca, sua divulgação em blogues e sites, funcionam.
Outra coisa que influencia é a geografia. Não é à toa que muitos músicos se mudam para centros como Nova York, Londres ou Paris. Faz diferença morar em Seattle, Akron ou Athens; se bem que nem tanto para Kurt Cobaim, Dan Auerbach e Michael Stipe. Kat nasceu em Dallas, Texas, e reside em Austin. Se morasse em Nova York estaria se apresentando com frequência nos inúmeros clubes locais de jazz. Facilitaria.
Além de estar baseada em Austin, seu primeiro disco, Take to the Sky (2009) é “self released”: montou a Convivium pra distribuí-lo. Mesmo assim, alguns críticos estavam atentos, caso de Christopher Loudon, da prestigiada JazzTimes.
No disco de estreia não faltam os costumeiros standards (Summertime, Night and Day, Charade, Angel Eyes, Just One of Those Things e Spring Can Really Hang You Up the Most). Até aí, normal, não é assim na maioria dos discos de intérpretes desse gênero? O resto das canções escolhidas fogem bem do repertório costumeiro: Just Like Heaven, do The Cure, do britânico Robert Smith, Lovefool, dos Cardigans, One Fine Day, de Carole King, e (Just Like) Starting Over, de John Lennon. Edmonson não foge à regra dos cantores atuais: são “in and out”, transitam entre o jazz e o pop. Quanto a voz, parece um pouco com a de Stacey. O registro é o que chamam de “child-like”. Uma das pioneiras foi a pianista/cantora Blossom Dearie. Quem gosta de Stacey vai adorar Kat.
As instrumentações são bem originais. Os arranjos do tecladista Kevin Lovejoy são elegantes e realçam o canto sofisticado de Kat e fogem dos padrões do mainstream.
Veja-a cantando Charade.
Cantando Angel Eyes.
Summertime.
(Just Like) Starting Over, de Lennon. Kat canta num andamento mais lento. Funciona bem. As originais do disco são, evidentemente, um pouco diferentes.
Kat demorou para lançar seu segundo álbum. No meio de 2012 saiu Way Down Low. Desta vez não há um standard. A mais antiga, de 1940, Whispering Grass, conhecida com os Ink Spots, não é exatamente um clássico, mesmo depois de ter sido gravada pelo beatle Ringo Starr. Outra conhecida é I Just Wasn't Made for These Times, de Brian Wilson (é uma das faixas do clássico Pet Sounds).
Quem nunca ouviu Kat vai se surpreender com Lucky. A batida constante do martelo do vibrafone, assobios e vocais letárgicos conferem um clima de uma canção de ninar. I Don’t Know vai mais ou menos na mesma toada com uma batida bem marcante. O clima fica mais solar em delicioso clima bossa nova – batidas delicadas de bateria combinando com o ritmo do violão e notas esparsas do piano de Frank LoCrasto – em What Else Can I Do. A quarta, dos Beach Boys, é melancólica. O arranjo é de uma sofisticação tremenda: econômica e emocionante, e a voz de Kat, “dolorida” é a afirmação de Brian Wilson: “Só não fui feito para esses tempos”. É um dos destaques desse CD.
Em Champagne, Kat diz nunca mais vai beber. O tom de Whispering Grass é um pouco diferente da versão dos Ink Spots: a tristeza é tristeza pura. É outro arranjo belíssimo, de tom impressionista, e um piano que faz você parar para ouví-lo. De tão simples, é sublime. Em Long Way Home canta com Lyle Lovett, cantor country de prestígio, ator ocasional e, grande dado para a sua biografia: foi casado com Julia Roberts.
Apenas com o piano de LoCrasto, em Nobody Knows That (em seu site – http://www.katedmonson.com – está disponibilizado o download desta canção) canta o medo de se abrir para o amado: “Você é tão perfeito para mim / E você não sabe que no fim / Eu esperava que fôssemos mais que amigos. / Ninguém sabe disso / Ninguém sabe senão eu.” Em Hopelessly Blue o tom é também desesperança. São duas canções que, com I Don’t Know (Reprise), Kat apresenta seus lamentos doloridos e conclui o disco.
A crítica elogiou Way Down Low. Mereceu 5 estrelas, a cotação máxima, na Downbeat. É uma honra dividida em 2012 com apenas cinco álbuns. Na boa crítica de Bruce Pulver, da JazzTimes (abril de 2012), deu uma ótima definição: “Ela pinta imagens nítidas com o conforto de um cobertor favorito.” Perfeito. Da boca de Kat revela-se um mundo inteiro, com traços de melancolia, tristeza, conformismo em sua inexorabilidade, felicidade, envoltos em mistério.
Veja a apresentação de Kat cantando Lucky, a primeira faixa do disco.
O vídeo oficial de Lucky.
Kat canta Champagne. Veja.
I Don’t Know, a segunda do disco.
O vídeo oficial de I Don’t Know.
Ouça a bela Nobody Knows That.

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