quinta-feira, 15 de março de 2012

Os duos de Charlie Haden

Haden e o baixo
O lugar do contrabaixo, ou baixo, como é chamado com maior frequência, é na “cozinha”; como a bateria. Quem sola é o piano, a guitarra, o sax ou alguns outros instrumentos. Cabem ao baixo e à bateria solos no meio das músicas, mas, quase sempre, a primazia é dos outros instrumentistas. Isso não tira a importância de um Oscar Pettiford, um Ray Brown ou um Jaco Pastorius. Um formato, no entanto, propicia maior presença ao baixo: os duos, principalmente, se os músicos forem Charlie Haden, Red Mitchell ou David Friesen. Dos três, Haden é o que mais gravou discos nesse formato.

Os primeiros que lançou como solista foram Closeness (A&M, 1976) e Golden Number (A&M 1977). Não é mera coincidência que os dois consistam de duetos com alguns expoentes do jazz com quem já havia tocado (Ornette Coleman, Don Cherry, Paul Motian e Keith Jarrett). Quando Closeness foi lançado, o conhecia pelos discos que havia feito como sideman de Keith Jarrett, e mais tarde, pelo álbum Free Jazz (de 1961), de Ornette Coleman.

Fiquei ‘paralisado” ao ouvir a primeira música de Closeness: Ellen David, em homenagem à mulher com quem era casado. Muitos amigos conheceram Haden por essa música. Todos os que vinham em casa eram “obrigados” a ouvir esse maravilhoso dueto com Keith Jarrett. Das três restantes, a outra preferida era For Turiya, com Alice Coltrane na harpa. A com Ornette Coleman, não gostava; a com Paul Motian era interessante, mais pelo viés político.

Curiosamente, o comunismo (naquele tempo existiam muitos militantes de esquerda, de variados matizes) de Haden era específico, voltado mais aos países latinos Espanha, Portugal e América Central. Na época, o General Franco era um cadáver ambulante, mas teimava em não morrer. António Salazar estava morto (1889-1970), mas o salazarismo não. Portugal era um dos últimos países a viver do colonialismo, com braços na África e no Oriente. Era dirigido por Marcelo Caetano quando aconteceu o que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974.

No crepúsculo do regime salazarista, Haden se apresentou no primeiro Cascais Jazz, em novembro de 1971. As atrações eram de primeira: Miles Davis, Ornette Coleman, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Art Blakey, Phil Woods e Dexter Gordon. Charlie Haden (estava tocando com Ornette Coleman) dedicou Song for Che aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique. Delírio: os portugueses não aguentavam mais. Viam-se faixas com a inscrição “Abaixo a Guerra Colonial”. Apesar de a apresentação não ter sido interrompida, Haden foi interrogado pelo Pide, a versão lusa do nosso Dops, e de lá, mandaram-no direto para o aeroporto.

Pois, a última faixa de ClosenessFor a Free Portugal – é uma colagem com percussões de Paul Motian e cantos da guerrilha angolana. Percebemos perfeitamente sons de tiros e vozes cantando palavras de ordem, na língua portuguesa, contra o colonialismo.

Mais ou menos nessa época, a amiga Lucila Wroblewsky, que sempre viajava para fora do país – coisa que não era tão fácil como é agora –, me emprestou um LP de Haden com o pianista Hampton Hawes: As Long A Thre’s Music (1978). Virei fã definitivo do baixista: tenho quase tudo dele, principalmente, as gravações em duos, que não são poucos. Além dos citados acima, gravaram com Haden, Chris Anderson, John Taylor, Hank Jones, Kenny Barron, Denny Zeitlin (pianistas); Antonio Forcione, Christian Escoudé, Carlos Paredes, Pat Metheny (violões e guitarras); e, Egberto Gismonti (violões e piano).

O último disco lançado foi Come Sunday, comentado anteontem (http://bit.ly/A2oxHE). Antes dessa gravação com o pianista Hank Jones, lançou Jasmine (ECM, 2010), com Keith Jarrett (sobre esse disco, leia http://bit.ly/rLYSsm), Foi considerado um dos melhores do ano pela crítica especializada, em revistas de jazz.

Ouça a bela Ellen David, com Haden e Keith Jarrett.



Haden e Gismonti
Egberto Gismonti e Charlie Haden. O primeiro disco gravado por Egberto Gismonti pela alemã ECM foi um sucesso. Dança das Cabeças, em duo com o percussionista Naná Vasconcelos, recebeu 5 estrelas – cotação máxima – da revista Downbeat, em 1977. Dança propiciou ao brasileiro uma longa cooperação com a gravadora de Manfred Eicher. Nos álbuns colaborativos que a ECM costuma produzir, Egberto gravou Sol do Meio Dia (1978), com Collin Walcott, Ralph Towner e Jan Garbarek. Depois disso, lançou Solo (1979), e em 1979, dois discos com Jan Garbarek e Charlie Haden: Mágico (1980) e Folk Songs (1981).

Em 1989 aconteceu uma série de apresentações de Charlie Haden no Festival de Montreal. Paulatinamente, foram lançados discos em que foram (re)unidos músicos que colaboraram com o baixista durante a carreira. Em 30 de junho, apresentou-se com Joe Henderson e Al Foster (Verve, 2004); em 1º de julho, com a pianista Geri Allen e o baterista Paul Motian (Verve, 1998); em 2 de julho, com Don Cherry e Ed Blackwell, velhos parceiros musicais da banda de Ornette Coleman e do Old and New Dreams (Verve, 1994); em 3 de julho, com o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (Verve, 1997); no dia 5, com Pat Metheny e Jack DeJohnette (não foi lançado); no dia 6, com Egberto Gismonti (Verve, 2004); com Paul Bley e Paul Motian, no dia 7 (Verve, 1994); e em 8 de julho com o Liberation Music Orchestra (Verve, 1999).

Em 1999, por ocasião da apresentação de Charlie Haden e seu Quartet West, no Teatro Alfa, São Paulo, Egberto Gismonti foi o convidado especial. É desse show que você vai ouvir Palhaço.



Como sou fã de carteirinha de Haden, tem sido assunto recorrente nas minhas publicações.
Leia sobre o CD Sophisticated Ladieshttp://bit.ly/ycnxYm
Haden toca Moments musicaux, de Rachmaninov: http://bit.ly/wVnmDW,
além dos que foram assinalados no meio do texto.

2 comentários:

  1. Gosto muito do Haden com o Quartet West, tenho uns quatro ou cinco cds.
    É um gênio do contrabaixo - em breve ele pinta no barzinho. Peço logo autorização pra pegar emprestado o seu post! :-)

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  2. Autorizadíssimo. Tenho todos do Quartet West. Gosto muito do Alan Broadbent. Até o Ernie Watts, de quem tenho alguma bronca (ninguém é perfeito, não?) gosto, quando toca no QW. Aquele em que bota a voz da Helen Forest e da Billei Holiday é perfeito.

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