terça-feira, 13 de março de 2012

A despedida de Hank Jones em disco com Charlie Haden

Hank no Steinway
Por ocasião em Hank Jones se apresenta com Joe Lovano, no Jazzbaltica, o pianista, já quase nonagenário, é entrevistado. No preâmbulo, o entrevistador fala do talento musical familiar (Hank era irmão do baterista Elvin Jones e do cornetista Thad Jones) e, naturalmente, da idade. Hank está quietinho, ouvindo-o. Na hora de responder, começa a balançar o corpo como se sofresse do mal de Parkinson; gagueja como um caquético. Ri da própria graça e se mostra senhor de suas ideias, muito lúcido.

Bom, uma hora, todos morrem. Inevitável. Jones se manteve na ativa até pouco tempo antes de falecer, em 2010. Gravou, nos últimos anos, com seu trio (George Mraz e Willie Jones), dois belos discos com Frank Foster e andou tocando com Joe Lovano. Agora, há pouco tempo, é lançado Come Sunday, um duo com o baixista Charlie Haden, três meses antes de morrer em decorrência de um câncer na próstata. Foi a segunda parceria. O outro foi em 1995: Steal Away. Ambos são compostos de músicas tradicionais americanas, spirituals, hinos religiosos, canções folclóricas e gospels.

Come Sunday pode ser considerado uma continuação – ou complementação – do anterior Steal Away (1994). Não é disco de grandes arroubos. É intimista e é música executada para ser ouvida assim, distraidamente, curtindo as discretas intervenções do piano de Jones e do baixo de Haden. É incrível como Jones, tendo ultrapassado os noventa, na ocasião em que o disco foi registrado, não passar, em nenhum momento, alguma fragilidade, executando um piano pulsante, exato, majestático dosando exatamente a pressão em cada nota e em cada acorde, nem mais nem menos, na precisa intensidade para imprimir a beleza única que sempre o marcou, seja em trios ou em duos com o outro pianista (Tommy Flanagan, John Lewis e George Shearing) ou com instrumentistas, como o saxofonista Joe Lovano (Kids: Live at Dizzy’s Club Coca-Cola, 2006), Frank Wess (Hank and Frank, 2003), a cantora Roberta Gambarini (You Are There, 2005; perfeito), e o baixista Red Mitchell (Duo, 1987), ou tocando com Ella Fitzgerald. Aliás, como Flanagan, era um mestre em acompanhar cantoras. Gravou discos interessantes fora dos contextos mais comuns no jazz: Sarala (1995), com Cheik-Tidiane Seck, músico de Mali, e Hank Jones with The Meridian String Quartet (1990).

Algumas músicas têm menos de dois minutos; a maioria tem perto de três minutos; a exceção é a primeira (Take My Hand, Precious Lord, com 4:26). O tempo, portanto, não propicia espaços maiores para improvisações. As peças são, praticamente, a apresentação das melodias em breves improvisos que pouco fogem do tema. A beleza está nos pequenos brilhos que cintilam na superfície de cada canção. A estrela mais fulgurante é Come Sunday, de Duke Ellington. As outras, quase tão belas, são Take My Hand, Precious Lord, God Rest Ye Merry Gentleman, Goin’ Home (com uma abertura meio sombria antecedendo um belo solo e bela mão esquerda de Jones), Blessed Assurance, It Came Upon a Midnight Clear, Give Me That Old Time Religion (solo de Haden) e The Old Rugged Cross.

Ouça Come Sunday.



Apesar de Come Sunday ser um bom disco, acredito que o anterior – Steal Away – é um pouco melhor. Ouça Nobody Knows the Trouble I’ve Seen. O baixo de Haden é marcante e quando entra o piano de Jones, que belo “fecho”!



O clássico Sometimes I Fell Like a Motherless Child.



O amigo Érico Cordeiro possui um belo blogue, rico em informações, diferente do meu, que trata dos assuntos de forma mais ocasional. Se você quer conhecer mesmo a vida de intérpretes do jazz, é lá que você deve ir: http://ericocordeiro.blogspot.com/
Caminhos para os textos de Érico sobre os irmãos Jones:

Um comentário:

  1. Meu amigo Guen, sempre preciso e elegante, como um acompanhamento de Hank.
    Provavelmente a família mais bem aquinhoada musicalmente na história do jazz. Lógico que tem os Montgomerys, os Adderley, os Farmers, os Cohns (pai e filho), mas os Jones são especiais.
    Obrigado pela generosidade em citar o jazzbarzinho, que é co-irmão do Sobretudo, Música.
    Abração.

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