terça-feira, 23 de junho de 2015

Mais um álbum póstumo de Charlie Haden

É oito ou 80. Gonzalo Rubalcaba toca com rapidez estonteante, a ponto de nos deixar tontos, ou toca tão lentamente, que nos causa sono. Claro. Há exceções, dentre elas seu último Suite Caminos, um retorno às raízes cubanas. É um CD um tanto esquisito, na acepção do termo em português, e não na que nomeia alguns bons charutos cubanos – “exquisitos” –, termo usado quando o objeto é de grande refinamento ou de muito bom gosto.

Rubalcaba é o nome do tornado vindo de Cuba e arrebatou críticos e amantes do jazz. Todos foram pegos de surpresa. Quem era aquele pianista que tocava tão bem e parecia ter surgido do nada? Sua apresentação em Montreux, em 1990, virou disco e, apropriadamente chamou-se Discovery. O trio era ele, Charlie Haden e Paul Motian. O baixista o conhecia desde que havia se apresentado em um festival de música em Cuba.

A amizade musical entre Haden e Rubalcaba persistiu por muitos anos. Depois de Montreux, reencontraram-se em várias oportunidades. Haden participou de The Blessing (Blue Note, 1991), Suite 4 y 20 (Blue Note, 1992), Imagine (Blue Note, 1994). Rubalcaba participou das gravações de Nocturne (Verve, 2001), Land of the Sun (Verve, 2004) e de The Montreal Tapes, registrado em 1989 e lançado em 1994. A série The Montreal Tapes é composta de gravações feitas na ocasião em que Haden era o homenageado. Em cada noite o convidado (ou convidados) era algum músico que tocara anteriormente com ele.

Depois da morte dele, em julho do ano passado, foram lançados alguns discos com registros mais antigos. O primeiro foi Goodbye (ECM, 2014), duo com Keith Jarrett, depois foi a vez de Charlie Haden – Jim Hall (Impulse, 2014). Agora, em junho, sai Tokyo Adagio, duo com Gonzalo Rubalcaba. Os registros foram retirados de duas apresentações no Blue Note de Tóquio em 2005.

Naturalmente, não faltam números latinos. Além de En la orilla del Mundo e Solamente Una Vez, temos um standard (My Love and I), uma composição de Ornette Coleman (When Will the Blues Leave), um tema do cubano (Transparence), e Sandino, dos dois.

En la Orilla del Mundo e Transparence são de Nocturne, e Solamente Una Vez, de Land of the Sun. Até um tema de andamento médio, como When Will the Blues Leave, de Coleman, fica lento. O “adagio” do título até poderia ser trocado por “largo”. O tom das músicas segue o gosto de Haden. Ele sempre gostou de andamentos lentos que tendem à melancolia. É só ouvir os álbuns do Quartet West, a sua banda retrô.

E não é à tôa que a melhor faixa é My Love and I, anteriormente gravada em Always Say Goodbye (Verve, 1993), com o Quartet West. O tema do filme Apache, é de Johnny Mercer, David Raksin. Ouça.



Ouça Sandino.





Tokyo Adagio é o segundo lançamento de Charlie Haden do selo Impulse, que estava desativado há um bom tempo, depois de ter sido responsável – há muito tempo – de gravar o melhor John Coltrane. O primeiro foi o duo com o também falecido Jim Hall. Os dois álbuns não são os únicos lançados por este selo. Liberation Music Orchestra, de 1969, é um dos grandes discos do baixista. Este faz parte de sua faceta “engajada”. Seu engajamento político de inclinações esquerdistas resultou em grandes discos. Além deste, o grande destaque é The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Dizem que arte engajada nem sempre dá em grande coisa. Nesse caso, deu certo. Leia mais sobre essa fase de Charlie Haden em http://bit.ly/1SF0SV8.

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